Não é necessário que saias de casa. Fica
à mesa e escuta. Não escutes, espera apenas.
Não esperes, fica em silêncio e só. O mundo
virá oferecer-se a ti para que o desmascares,
não pode fazer outra coisa, extasiado, ´
contorcer-se-á diante de ti.

Franz Kafka, "Aforismos"


quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

O reino - parte II

-Ousais vós, duvidar da Real vontade que nos manda, que em problemas torna vossos como seus. Criticam a ele, por imagem de nosso amado Solo tentar manter. Espelho de rei é espelho de Portugal.
-Imagem de Portugal é seu povo pobre e explorado, oprimido de quem manda e o crucifica, em nome de quem o foi para não calhar a nós. Fosse real a consciência que dizem ter e a Reinante Presença não apenas respeitada. Amada.
Tamanho reboliço o chamou, nosso Bispo, inchado de caras e quentes mordomias, fazia saír a vergonha dum rebanho explorado por seu Santo Hábito. Tal era o luxo, sedas e oiro cobrindo semelhante face. Altiva imagem encaminhava seus súbditos escravizados, uns de corpo, outros pensamento.
-Criticam vós quem em terra pastoreia povo do Divino, localizada em representação de Roma nesta ilustre terra, como tantas outras, espalhando fé e ensinamento.
-Delegação vil e corrupta, do dinheiro mantida e motivada quer sua Excelência dizer, sendo esse, único mandamento que vos rege e obscura, faltando aos 10 outros da Ensinação. Mantidos por quentes e horripilantes queimadas que afastam vozes contrárias. Medo e obdiência cega, calados nos tornamos, incapacitados de agir e gritar. E mesmo que o fizessemos, imponentes são vossos recantos que Novas não passam, pedra e onstentação, orgulho e submissão.
Multidão pensavam os reinantes. Sempre mais fortes e brilhantes, os raios inundavam as almas, fossem rápidos e liderados, a algo haveriam chegar. Condenados, depressa o sonho deixaram esquecer.
Foi medo, foi não saber, fosse o que fosse, não mais do que sempre, capacidade para mais ver.

Ri-me

À saída um rapaz lia. Movido duma inexplicação interrompi-o, agarrei no livro e vi o título, ri-me. Incrédulo nada disse, eu também. Deixei-lhe o que lia e saí.
Horas passaram, elas ou eu. Parece sempre igual o tempo, como se fosse apenas eu que mudo nesta constante.
Tinha acabado, chorou. "Porquê, porque me fizeste isto? Devolve-me a paz"
Não podia, apesar de não ser paz que queria, fosse, não a sabia dar. Ignorância, era o que queria, incapacidade de ver, realmente ver. Continuei calado enquanto me gritava "devolve-me a paz". Nada feito, sendo a única resposta capaz, fui buscar outro livro, aceitou-o sem reclamar.
Leu, eu outro. Por vezes olhava-me, medo sentia, não sabia que fazer, dizer, pensar, sentir, meu deus, nem que sentir sabia ele. Procurava uma resposta, algo ainda por descobrir, sem ideias do que seja, como todos, mas conhecendo, como eu a sua existência.
Acabou, voltou-se, "devolve-ma a paz", calmo o disse. Novamente, outro livro, impaciente olhava, não para mim, para o livro seguro nas minhas mãos. Leu, continou a ler, acabou, seguiu o seu caminho. Nada disse, nada havia para.
Encontrei-o dias depois, "não há paz", filosofava fino então. Nunca houve, respondi.
Foi, nunca mais o vi, também fui,outro caminho. Os dois, contentes, não tinhamos paz...

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Bilhete

Alguém rouba-nos, deixa como bilhete, ao lado da arronbada porta, o fatidíco, "Roubei-te". Então, olhamos para dentro e vemos tudo aparentemente igual, mesas no sítio, dinheiro escondido, preciosidades limpas, roupa no armário, enfim, tudo igual, como se nada tivesse passado, igual à última vez em que verdadeiramente as vimos, as pensamos.
Mas aquele bilhete, aquela parte, aquela sensação, quem ousaria ter levado, o que faltava? Já não era o quem nem o quê, mas como, porquê? Algo, não todos os valores que havia, nem os dispensáveis, um mísero papel no lixo, nada. Teria sido, em vez de tirado, posto? Não, tudo igual. Medo, inquietação, juntou-se talvez isso. Entre tudo o que poderiam tirar, nada era pior.
Sem solução, nada aparentava ser diferente, mas havia aquele bilhete...

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

O Reino - parte I

Te rogamus, audi nos!
Fosse rogada em português, não teria tamanha atenção, mas, como era Santa sua origem, o povo calou. Nada tinham para dizer e espantados de tanto nada calaram-se igualmente. Já vozes levantavam motins e indiferenças quando obrigados foram, gritaram novamente:
Te rogamus, audi nos!
Foi ponto feito, nem que fosse de nada terem dito, coragem ganharam, avisados que à segunda o efeito seria menor, de imediato, o silenço e espanto pelo orador cortado.
-Povo que me escuta, desígnio de el-rei aqui me fez chegar. Deste alto recado vos é pedido mais esplendor que em Portugal não haja e, por esforço vosso, seja hoje de novo o antigo interesse maior da Nação.
-E nosso soberano, que fará ele por nós enquanto abastadas noites apresenta e farta seus fidalgos e pagens, de nosso trabalho pagas, com a dívida de tédio e desdem olhar para sua "defeituosa" plebe, perdoado seria, não fossem os defeitos próprios de todos.
Nesta Primavera em flor, onde manhãs de Abril agradeciam com seus verdes raios anunciadores de Esperança, a brancura trazida suscitava nos revoltosos a febre que precisavam, a coragem que faltava. Inquietos, vozes surgiam em acusações à Corte e seu Senhor, ao Clero, pouco mais via que missas em língua morta que nada entendiam, estabelecidas duma forma desconhecedora de razão. Fosse pouco, há ainda a juntar essa Santa Fogueira que almas queima em troca duma aparente e luminosa Verdade. Vivo fosse O representante na Terra que pensam ser, não sabendo queimado também seria, por grandes valores defender. Nem ao O ouvir conseguiriam ver. Essa, que de nós leva, conterrâneos desta terra por Camões pisada, quando, fora de madeiras flutuantes, aumentava mundos ao mundo, conhecimentos ao conhecimento, seu então Rei, dinheiro e ostentação. Herói esse esquecido foi, como tantos outros houve, mas não sem antes engraceder o “peito ilustre lusitano” com seus 10 cantos e demais feitos.

A Maldição

È engraçado ver relógios parados. Como se o tempo tivesse acabado e nós continuassemos a existir por uma rotina que já não acaba, tivessemos problemas por nos serem inseparáveis, mais naturais que a essencial operação de respirar. Aniquilavamos para preencher o tempo, como até aqui sempre fizemos mas já nem tempo era, uma interrupção sem fim, amaldiçoado até ao último que resista e veja por fim a desgraça humana, capacidade de auto-destruição, numa perfeita imagem do mundo por genuína ser.
Não haveria mais ar, mais passáros a cantar, mais água a correr, frio, calor, nada. Apenas nós, humanos e nossas coisas, deixados para trás em vigança por o tempo ousado descuirar, todos os nossos erros, guerras, intolerâncias, tudo. Acabar seria um desejo sem saber para onde. Veríamos sempre o mesmo, intocáveis, relógios, passavam sempre as mesmas horas, sem haver dia nem noite, horas e tempos, apenas nós, nossas coisas, nossa destruição e todos os relógios parados, anunciado a nossa desgraça. Haveria um tic-tac inacabável de algo que já não responde mas existe, infernizando todos os ouvidos com seu ensurcedor e repetitivo barulho. Lembrando a cada um seu mal, sua existência, aumentando sua ira, acelerando o fim anunciado.

Outra vez, nada

È cedo, cedo é para me encobrir em falsas providências; juízos, mil faço, mas que sabedoria encerram, sei não mais do que em mim penso e faço, escrevo e represento pouco do sou, sempre menos que imagino.
Podia fazer tais considerações que outros fizessem igual, algumas faço, outros tento mudar, qual a certa, as duas erradas? Não vislumbro tal solução, apenas reconheço que de mim partiram, primeiro ou último a fazê-las, quem sabe, que interessa, nada interessa.
Pouco se passa neste mundo que de real interesse é, ou imaginado. Não há razão para o ser. Igualmente para como sou, mas sou-o, tal como és quem não aparentas ser, seja salvo quem bem minta.
Não há ciência no que faço e penso, no que fazes ou pensas, até no que pensas fazer, tal, agora irrelevante.
Agora, que já houve ivenção, patente e nome para tudo, não há maior liberdade ver tudo ou nada, quais dos extremos pertenço, não sei eu nem tu.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

País que não existia

Vou contar a história dum país que não foi, com habitantes que não o habitaram, com heróis que não o engradeceram, com um terretório que não existiu, com uma alma que perdura.
Nesse país, as pessoas acordavam todas á mesma hora e deitavam-se de igual forma. Nesse país, todos liam os meus autores conterrâneos que eram previamente escolhidos. Todos pensavam duma forma que era previamente pensada. Ninguém sorria, nem chorava, nem falava. O trabalho era para todos igual e tudo o que necessitivam aparecia sem saberem, nem questionarem, enquanto dormiam.
Nesse país, houve finalmente alguém que acordou enquanto todos dormiam, houve finalmente alguém que ouviu barulho e gritou, mas ninguém respondeu, todos dormiam. Sem respostas, encheu-se de coragem e caminhou para junto da inquietação.
Foi aí que viu quem de noite ia buscar o que de dia trabalhavam, foi aí que viu quem de noite trazia o que de dia precisava, foi aí que viu quem de noite pendurava avisos sobre o que deveriam fazer no dia seguinte. Foi aí que pensou pela primeira vez.
Pensou, e ajudado por um cérebro novinho em folha decidiu mudar os cartazes, enquanto outros dormiam, ele, percorreu todo o país escrevendo :"Hoje não se trebalha, porquê? Pensem vocês."
De tanto correr acabou morto, mas de trabalho feito. Quem o viu nem ligou até que à primeira voz que falou, também esse pensou. Ele e todos, ninguém nesse dia trabalhou, tudo pensou e discutiu, "que teria ele visto, que teria ele feito", que havemos nós feito sem existir, que somos nós sem pensar?
E de tanto pensar o país começou a existir, as pessoas começaram a habitar, os heróis a surgir, e tudo porque alguém viu, pensou, outros viram, outros discutiram, todos ganharam.
Todos excepto quem nessa noite voltou e, surpreendido, também pensou. "Que fizemos nós, fujamos antes que cheguem." E assim acabou a exploração, acabou um país que não existia, ou seja, passou a existir, tal como as pessoas, os seus problemas, os seus heróis, os seus orgulhos, a sua história.