Não é necessário que saias de casa. Fica
à mesa e escuta. Não escutes, espera apenas.
Não esperes, fica em silêncio e só. O mundo
virá oferecer-se a ti para que o desmascares,
não pode fazer outra coisa, extasiado, ´
contorcer-se-á diante de ti.

Franz Kafka, "Aforismos"


sexta-feira, 6 de abril de 2012

Os meus cabelos moldam-se e vão com a pele e a carne, e acaba por mudar de tom. São as mãos que, por instituto mas não só, acabam por chegar. De início, com vontade de comprimir, e outra coisa não o fazem, até também elas se juntarem à amálgama. De repente, esquecem-se, obrigadas a esquecerem-se, e todo o corpo se agacha no primeiro canto que encontra, - espantando, não sem remorsos, os gatos com a confusão - e deixando o que cai a centímetros de distância, já noutro mundo, como banda sonora, acompanhamento de algo que já não o é. Ficam os membros superiores sem vida a mover-se pela cabeça, ocupando-se das maiores aberturas, e os inferiores esperneando, descobrindo chão seguro que não é concebível existir. 

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