Não é necessário que saias de casa. Fica
à mesa e escuta. Não escutes, espera apenas.
Não esperes, fica em silêncio e só. O mundo
virá oferecer-se a ti para que o desmascares,
não pode fazer outra coisa, extasiado, ´
contorcer-se-á diante de ti.

Franz Kafka, "Aforismos"


terça-feira, 28 de abril de 2009

(um texto perdido entre tantos outros)

Um empregado morto nos trabalhos, o capataz de volta do meu irmão usando-se do cigarro para ganhar vantagem, justifica
-ninguém o mandou ser burro
pisgasse-se como os outros, mas parece que não gostava muito de beber
-aqui para nós que ninguém nos ouve
faz uma nova dança com o cigarro
-eu nem sou de falar, o patrão conhece-me
chega-se mais perto
-mas ele tinha a mania que era mais que os outros
pedras que pareciam rolar dum lado e doutro, o Sol que já não incomoda tanto pois um copo sempre ajuda com o calor e torna o trabalha mais rápido, o pó subindo
(subindo nada, tudo tão seco que parece casca, arranca-se e junta-se num molho como se fosse um livro, as minhas mãos à procura dum clip)
acrescenta
-já o pai era barbeiro, o senhor não chegou a conhecer
parecia pedir confidência depois dum gesto com a boca seguido dum piscar de olhos, deu um passinho ao de leve para trás
- agente voltou e esqueceu-se dele
uma tábua fora de sítio encontrou repouso na cabeça do mariquinhas
-acidentes acontecem
e abre os braços sabendo que mais nada se pode fazer, amanhã tenho uma consulta e se eu contar alguma coisa ao médico será que ele
(-tábuas?)
-é a vida
puxa tudo o que lhe resta nas goelas e escarra
(fingi-se interessar
-ah... ´tou a ver
ar e dentes de quem fuma, o cheiro que a bata não esconde, aposto se pudesse esquecer-se um bafo em cima de mim
-está a ver aqui?
apontando espaços brancos uns ao lado dos outros como um delta, uma luzinha gasta atrás, fala-me do rádio analizando o meu braço
-isto não anda mesmo nada bem
mete um ar intrigado mas de novo o mesmo)
-quer que o mande enterrar
dá uso ao fumo para disfarçar, contrariado escarra outra vez
-não me custa nada
aí, talvez consciente dos nossos olhares, apercebe-se finalmente do incómodo
-importa-se que fume
o meu irmão faz um gesto de indiferença com a mão que lhe passa despercebido
-o meu único vício sabe
assim que no ribeiro nem um fio para amostra logo uns poucos deixaram de fumar, este todo chupadinho nem por nada
-depois pago um copo ao padreco
despede-se com a mão raquítica estendida ao céu já depois de volver costas, memórias ocorrem-lhe
-agora que me lembro, esse cabrão ainda me deve dinheiro da aposta
que uma pessoa acaba sempre por perder-se e não é por ser padre que se safa, as recordações parecendo vir umas atrás de outras atormentam-no e vira-se novamente para descarro de consciência
-na volta passo pela barraca da mãe
escarra novamente e dá um bafo que parece tranquilizar-lhe as ideias
-quem os fez que os trate
e perde-se no horizonte, manco da perna direita.
Por enquanto esqueço-me, (vírgula)
(o porquê disto, digam-me, orienta-te que já vai sendo tempo, o capataz onde, atenção ao poste mesmo aí à frente)
não digam nada a ninguém mas o clip nunca apareceu.

(P.S: esta história é puramente ficcional. deixo esta nota depois de ter visto o primeiro comentário. só para não criar confusão. :D)

domingo, 26 de abril de 2009

O Jardim - III de III

- Maria, por favor… - passou a mão pelos cabelos e recuperou o fôlego – por favor, faço tudo o que quiseres… uma oportunidade, é tudo o que te peço.
Duas mulheres, a rondar os 40, passavam nesse momento por ali e comentavam a situação baixinho e com sorrisos enternecidos. O cão estava de pé, lado a lado com Luís, latindo. Maria ia ruborizando-se cada vez mais.
-Maria, por favor, responde-me – levou a mão esquerda ao peito – responde-me…
As mulheres pararam, deixando uma pequena distância.
Olhou muito seriamente para ele e disse: «Não». Recostou-se em seguida no banco.
As mulheres foram-se embora, era audível um tom um pouco agressivo enquanto se lamentavam e criticavam Maria.
-Não… - Luís começou a tremer, as pernas vacilavam – não… Mas… - caiu no chão e largou a rosa; apoiava a mão no banco, suplicante; abanava a cabeça e olhava para baixo – porquê?
O cão mexeu-se e foi ter com a rosa, com a pata ia estragando as pétalas.
- Desculpa Luís, mas não. – com a voz a calma e olhando para os lados – Agora levanta-te.
-Mas que mal fiz eu?
-Nenhum, mas mesmo assim fizeste tudo o que não devias ter feito. Não és tu, eu é que quero viver assim.
-Assim? Assim como? E que fiz que não devesse? – levantou a cabeça, uma lágrima começava a aparecer.
-Nada, não há nada que pudesses ter feito, ou deixado de fazer. São apenas opções, não há nada que justificar.
O cão voltou para junto da dona, Luís mirava pela primeira vez as pétalas destruídas, Maria dava festas no dorso do cão.
Ele enxugou as lágrimas com a manga, voltou-se a sentar, tudo isto muito depressa, decido. Ela olhava-o com alguma admiração.
-Não consigo perceber, não consigo perceber. – abanava a cabeça, Maria não respondeu. – Faria tudo por ti. Se ao menos soubesses o quanto te amo. Bem, talvez nem assim. Mas tudo, mesmo tudo.
Manteve-se quieto, ela brincava com o cão, assim alguns minutos. De repente levantou-se.
-È essa a tua resposta? – a voz de Luís tinha um quanto de desafio; ela, surpresa, virou o olhar ao seu encontro.
-È. – consertou o cabelo, apoiou a cabeça no pulso, e virou-se para o lado contrário onde Luís se encontrava.
Luís foi-se embora, andando ao lado do muro. Ela pensava: «Que idiota, deve pensar que lhe devo alguma coisa.» e puxava as orelhas ao cão. Ele parou e olhava novamente para ela, continuava entretida; ele repetia em voz baixa: «Tudo, era capaz de tudo». Andou mais um bocado, com um dedo a raspar no muro e a olhar para o mar. Virou-se novamente, desta vez amaldiçoou o cão. Subiu o muro e saltou.
As pessoas que ali estavam correram para o local e tinham ares aflitos. Ela levantou-se, puxou a trela do cão e vestiu o casaco. Foi-se embora calmamente, manteve uma pequena distância quando passou pelo local, olhou para lá, com a cara baixa. Um pouco mais à frente, deitou a revista no lixo.

Inspirado no quadro "A dama de vestido verde" de August Macke:

quinta-feira, 23 de abril de 2009

O Jardim - II de III

Sentou-se num banco de jardim. O mesmo de sempre. Fitava particularmente uma árvore, que apesar de não lhe saber o nome, lhe transmitia uma sensação estranha de paz. E assim ficou, tranquila, todo esse tempo sem se preocupar com mais do que uma ou outra festa no dorso do cão em resposta aos seus latidos. Até que uma voz a fez recuperar os sentidos:
-Minha querida Maria. Como estás? Oh… - abriu os braços por impulso mas depressa se recompôs - mais bonita do que nunca. – e sorriu.
Era Luís, um velho conhecido de Maria. Ultimamente, desde que soube destas «saídas», passa pelo jardim todos os dias, mal sai do escritório. Na empresa do pai. Fato e gravata, nunca tira das mãos a pasta para suavizar o nervosismo.
Maria sorriu um pouco, um sorriso seco, disse: “Olá Luís” e voltou-se para o cão. Estiveram assim uns segundos, ela sentada, ele de pé a admirá-la, nervoso.
-Não se senta? Esteja descansado que não mordo.
Ele tentou disfarçar com um sorriso. Sentou-se devagar, olhou o cão. Ganhou coragem e virou-se então para ela, com a pasta sobre os joelhos.
-Bem sei que não morde, sempre a brincar a Maria. Estava era distraído a contemplar os seus lindos olhos.
-Não comece outra vez. Estou a ficar farta das suas histórias. Não lhe chegou já?
-Não, desculpe-me. Mas é você… Não me consigo aperceber do que faço. Mas por favor, não vá, isso foi só uma vez, juro. – e via-se o desespero no seu rosto.
-Muito bem. Mas ai de você que comece outra vez aí a declamar a plenos pulmões. Vou-me logo embora. – e apontou com o dedo para a saída do jardim.
Ficaram uns minutos em silêncio, ele sempre direitinho, olhar baixo na direcção da pasta; ela ocupava-se do cão.
Luís tossiu um seco. – Já pensou naquilo que eu lhe disse?
-Naquilo o quê? – olhou para ele com a sobrancelha direita levantada.
Ele engasgou-se um pouco.
-Sobre… - e ia entrelaçando os dedos – sobre… - tossiu de novo – o nosso jantar.
-Não há muito em que pensar. – sempre serena, no mesmo tom de voz, e brincando com o cão que agora se apoiava no banco.
Luís, muito devagar, pôs a mala à sua esquerda. Abriu-a sem o menor barulho e tirou uma rosa, envolvida num plástico transparente. Maria sempre de volta do cão. Agarrou decidido a rosa, deu um pequeno salto, bastante desengonçado, para a frente de Maria. Elevou a rosa com a mão direita e deixou cair a esquerda sobre o joelho. Ela ficou sem reacção.

For me it`s pretty simple: I just don`t know what to do with myself

White Stripes - I just don`t know what to do with myself

segunda-feira, 20 de abril de 2009

apetecia-me desistir de tudo, mas agora apercebo-me que já o fiz há muito tempo. è isso que me têm deixado feliz, resta saber até quando
(e não, não isso que estás a pensar)

domingo, 19 de abril de 2009

Os Quadros - Goya - "The Colossus"


-Senhor
trouxeram-lhe o relatório
-Todos aqueles que não podiam pagar ou de alguma forma criticaram... mortos
levou a mão direita ao rosto, massajava a barba, nem um suspiro lhe saltou
-No total, 14
pois agora, no seu pensamento, mais 14, menos 14, tudo na mesma
-Senhor, fazendo as contas, 80 este mês
não queria mostrar, mas sentia nojo de si
-Deseja mais alguma coisa
apenas não lhes podia mostrar
-Podem ir
pois, no fundo, receava por si.
Talvez o medo de também ele poder morrer ou, que eles, o soubessem...

sábado, 18 de abril de 2009

Hoje, com o Público, por mais 1,95, numa colecção de filmes de culto

(já tenho o meu, hoje vejo-o pela 6ª vez)
P.S: Una, vais tê-lo, já ando para te dizer muita coisa há uns tempos. Mas acho que fizeste bem em tirar os comentários.

O Jardim - I de III

Ela chamava-se Maria Isabel. Tinha cabelos castanho-escuros, mas que aclaravam e brilhavam com muita luz. Uma madeixa que caía sobre um rosto bonito. Pele clara e olhos castanhos, alta e de formas apetecíveis. Chegou aos 25 e nem um beijo dado.
(não era isto que eu queria escrever)
Parecia levar a vida com uma passividade muito sua, sem interesses, sem paixões, sem objectivos. Um mero correr. Aos 16, conseguiu convencer os pais a deixá-la sair dos familiares ares da sua aldeia por uma cidade no Litoral, em casa duma tia. Ela, já muito velha, vivendo só e cheia de problemas de saúde, acolheu com muito gosto a sobrinha. Os seus avos maternos apreciaram o "gesto” e passaram a apoiá-la em tudo; pelo menos, e como lhe dizia a avó: “Até a minha netinha arranjar um marido. Pretendentes não devem faltar” – e sorria, a neta nada respondia e mantinha a face inalterada.
(rapaz, que andas a fazer?, corta tudo e volta atrás)
Tinha poucos amigos e raramente saía de casa. Salvo um certo jardim que costumava aproveitar em dias de Sol, não muito longe de casa, sempre ao final da tarde, esperando pela brisa.
(continua, porra que é teimoso)
Havia um pequeno caminho de terra ladeado por bancos de jardim. Sentava-se e assim ficava, practicamente sem fazer nada, mesmo podendo admirar as árvores e as flores que tomavam a forma de figuras, olhar para alguém que pudesse passar, levantar-se e ir ao pé dum muro que ali estava, apoiar as mãos, e contemplar o mar que batia a poucos metros e a chamava pelo bater das ondas no desfiladeiro. Quanto muito, por vezes curvava-se e passava a mão pelo seu cão, que trazia em todas as ocasiões, e era grande e de pelo branco, muito dócil. Podia-se dizer que apreciava apenas o “respirar” daquele lugar.
(por enquanto fica assim...)
O dia a que me pretendo refirir não deveria ter sido diferente. Saiu, não sem antes ir ao quarto da tia ver se precisava de alguma coisa e comunicar-lhe a saída. Passou por um quiosque e comprou uma revista de moda, ajeitou os óculos escuros e olhou acto contínuo para o espelho duma loja, consertou o cabelo. Parou um bocado para ver a capa e de seguida tornou a caminhar, levava a revista dobrada na mão esquerda e a trela na direita. O queixo sempre direito e de olhar distraído.
(não era mesmo nada disto)

sexta-feira, 17 de abril de 2009

A ver se ainda publico hoje o meu conto, este está apenas mau, acho que o tenho de pôr mais seco. E também deverei falar, em posts futuros, de quatro escritores que neste momento me parecem ser as maiores influências na minha forma de escrever. Dostoievski, Tchecov, Lobo Antunes e Hemingway, principalmente Hemingway...
Recomendo Hemingway a qualquer um, pena não haver muita gente que tenha paciência para ele, principalmente, segundo o que me têm parecido, o público feminino. Mas acreditem, mesmo sendo tão seca a sua prosa, tão despojada de adjectivos, - assim é que é - tão crua, na minha opinião, é ainda mais transcendente e profundo que escritores ditos desse registo, escritores como Pessoa.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Dealer - II de II

-Bem, deixemo-nos de brincadeiras. Melo, és tu a dar. Despacha-te. – O Sousa que abanava o seu Whisky.
Um Às de ouros, um 3 de espadas e um nove de paus.
-Mas diz lá João, já foste a casa do teu genro?
-Já. – num ar desinteressado.
-Muito bem João, muito bem. Tu é que sabes. Se fosse comigo ela nunca mais voltava a casa. Mas parece que já te pegaram essas modernices. – fez um gesto com a mão como se quisesse varrer o ar.
A jogada foi ganha pelo Melo, ninguém cobriu a aposta.
-Senhor Azevedo, de novo para si.
E agora todos eles mais impacientes excepto João. O Sousa tentou disfarçar:
-E conta lá João, como foi?
-Não há nada a contar.
-Nada!? Vá lá, não sejas tímido.
-Não aconteceu nada. Não passou duma simples visita. Boa gente.
-Se tu o dizes João, acredito. – rindo-se – Se tu o dizes…
Um 6 de copas, um Às de copas e um 2 de ouros.
-Eu aposto, eu aposto 200. Quero ver quem é que vem agora. – disse um confiante João.
-Eh lá. Foi uma mosca que te mordeu. – de novo o Sousa – Assim até metes medo.
Vá patrão, largue lá o homem. – acudiu o Melo, entregando as cartas para o centro da mesa em sinal de desistência.
-Eu também passo. – o Azevedo, acendendo outro cigarro.
-“Tás” com sorte hoje. – desistiu igualmente o Sousa.
-Eu vou. Aposto tudo! – o Duarte que olhava agora para João de forma impaciente, enquanto brincava com o isqueiro.
-Eu também! – o João que até se levantou da cadeira para espanto dos seus colegas.
-Isso é que é fé. – O patrão, que provocou risos no Azevedo.
Viraram as suas cartas. João tinha dois Ases, um de paus e o outro de ouros. Duarte tinha um 9 de copas e um Rei de copas.
Saiu primeiro um Valete de paus.
-Está ganho, está ganho. – repetia João.
A mão acabou com um 5 de copas, flush para o Duarte, ganhou.
-Pois é João, tiveste azar – o Duarte que agarrava as fichas que tinha ganho – tiveste azar, tiveste azar…
-Sr. João, para si.
-Obrigado Matias.
Abriu-a de repente sem ninguém notar e exclamou:
-Está vazia – olhava seriamente para os dois lados da carta mas nada, os seus colegas olhavam-no incrédulos, como se tivesse falado pela primeira vez – Mas… está vazia!, isto só a mim. – Acabou por se ir embora repetindo sempre «está vazia» e depois ria-se.
O jogo continuou, eles ainda tinham fichas.

sábado, 11 de abril de 2009

Paranoid Park

O meu filme favorito, pelo meu realizador favorito, Gus Van Sant. Venceu o prémio da 60º edição do mítico festival de Cannes. Considerado o melhor filme de 2007.
Eu podia estar aqui horas sem saber o que realmente dizer. Na minha opinião, é simplesmente brilhante. Têm uma história interessante, boas persongens - adorei o protagonista, vive tão alheado de tudo, têm um rosto tão inexpressivo durante o filme, a forma como se realcionava com as pessoas, como parece não querer saber de mais nada mas no fundo está apenas em confrontação consigo mesmo, revi-me completamente.
Além disso, a forma como foi feito. Misturando passado e futuro, músicas e partes brilhantes - e já agora, para quem se lembra e viu no meu blog, foi duma dessas partes que me inspirou para criar um conto meu, A Praia, o sítio onde as pessoas perdiam a alma. A sério, vale a pena.

Dealer - I de II

-Full House
Todos os dias jogava-se Poker numa sala contínua ao café da aldeia, isto a horas em que mais ninguém se lembraria, apenas queriam jogar. A mesa era composta pelos mesmos 5 homens que num dever de santo cumpriam a sua missão. Se alguém costumasse ver o jogo diria que se limitavam a deixar as cartas rolar pois não falavam muito a não ser em pequenas vitórias. Mas hoje algo seria diferente.
-Dois ases.
-Você está hoje com muita sorte, patrão.
-Isto não é sorte meu caro – dizia com um ar sereno – há coisas que vêm com a nascença.
-Desculpe, Sr. Sousa – o empregado que invadia aquele aglomerado de fumo – chegou isto para si.
Olhava com uma certa curiosidade, era uma carta que além de não ter mais do que o destinatário, era a primeira vez que naquelas sessões aparecia alguma. Abriu-a e rapidamente a escondeu no bolso.
-Então patrão, algum problema?
-Problema nenhum. Vá, de que é que estão à espera? Jogar.
Saiu um 6 de espadas, um 3 de ouros e uma dama de ouros.
-Eu vou!
-Eh João! Isso é que é confiança. – o Sousa que punha agora um riso trocista – e a tua filha, João? Ainda com o preto?
Nada respondeu e mantinha-se sério a olhar para o meio da mesa. Todos os outros seguiram o riso do patrão.
-Vamos a ver se ainda continuas. – o Duarte puxou de todas as suas fichas. João acabou por desistir.
-Tens de ter calma João – de novo o Sousa – mas também tens desculpa. È como eu digo, já vem com as pessoas. Questões de nascença... - e estendeu as mãos sobre a mesa.
Nova jogada, a esta foram o Azevedo e o Melo, acabou por vencer o primeiro com um par de Valetes.
-Senhor Duarte, para si. – O patrão, que se sentava mesmo a seu lado, estava de olhos postos na carta enquanto baralhava desinteressado. Começou a roer o charuto, virou-se para o empregado e pediu outra rodada.
Um 3, um 8 e um Rei, todos de paus.
-Aposto 100 – gritou João para gáudio dos seus colegas.
Um Rei de copas e um 5 de espadas.
-Ganhei, ganhei! – o João – 3 Reis, olhem, olhem!
-Calma aí campeão – o Azevedo – flush. – Mostrando as suas cartas, ambas de paus.
-Pois é João, pois é João – insistia o Sousa – é preciso mais calma rapaz. O que vale é que já te resignas com isso, na tua situação é sempre o melhor a fazer. Louvo-te isso. O melhor meu jovem, o melhor mesmo...
-Meus senhores, a rodada. – chegou o empregado – Ah! - e levou a mão ao bolso - Sr. Melo e Sr. Azevedo, para os senhores. – entregando novas cartas.
Os dois antecessores deixavam transparecer um nervosismo maior do que aqueles que receberiam agora as cartas. Mas assim que estes as arrumaram – o que não levou muito – voltaram a concentrar-se no jogo.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

O meu nome é Kurt Cobain

O meu nome é Kurt Cobain. E sempre foi. Os meus amigos dizem que estou maluco - ou melhor, sempre o fui - não me interessa. Digo para quem quiser ouvir, o meu nome é Kurt Cobain. Não vejo nada de especial nisso. Há para aí uns quantos que me falam nuns tais Nirvana - não conheço - e parece que tinham um vocalista chamado Kurt Cobain - não faço ideia. Para mim, tanto se me dá. E também me é igual se me chamam maluco. Apanhei esta mania e não há nada a fazer. Que é que querem, gosto da sonoridade do nome. Digo-vos mais, se tiver um filho, chamar-se-a igualmente Kurt Cobain. Não, não sou maluco - já o disse - e bem sei bem que me chamo Zeferino Matias de Jesus Pereira, mas insisto em Kurt Cobain para os amigos - desconhecidos é Senhor Kurt Cobain. E ai de quem me diga a verdade.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Nirvana - Lithium

Faz hoje 15 anos que o líder da melhor banda de sempre foi encontrado morto, Kurt Cobain. Tinha centenas de vídeos de música para pôr aqui (passo o dia a vê-los) mas decidi por uma mais calminha... porque, no fundo, o que conta em Nirvana é a mensagem.

O candeeiro - II

Sentei-me sem ela esboçar o menor gesto, estava prestes a acabar o livro. Olhei para a luz que vinha do candeeiro e senti-me um mero objecto. A luz ia moldando sombras com a ajuda da Lua ou outro carro que passava. Dum momento para o outro podia correr toda a rua mesmo estando sentado, tudo através da minha sombra que seguia com o pensamento. Como se ao existir algo de real ali, não fosse mais do que o meu reflexo apagado, movendo-se contra a minha vontade lógica, mas empurrada pelo meu espirito. Tudo numa sucessão de pequenos momentos, pequenos recortes que me faziam ir à memória e buscar certos sons que embora parecessem dotados dum outro timbre, quase afónicos, ouvia-os bem na minha inquietação. E tudo seguia segundo essa banda sonora, orquestrada pelo candeeiro. Tudo isto até que uma voz me acordou:
-Era capaz de matar este escritor.
À qual fui incapaz de responder, não mais do que um simples abalo. E regressei lentamente a esse estado como se a noite fosse ganhando cores e outras dimensões, com características próprias e impossíveis de se interligar. Dum momento para o outro estava num filme, em que a cena se desenrolava junto a esse candeeiro intermitindo entre o preto e branco, nos momentos mais introspectivos; apenas uma súbita junção de cores em que eram permitidas legendas:
-È incapaz dum final feliz, estava mesmo capaz de o matar.
Com isto acabei por acordar, a realidade ia aos poucos voltando como se fosse uma bebida que é preciso saborear, dei um sorriso para dentro e respondi-lhe:
-Espero bem que não faça isso.
-Não, mas era o que merecia. Uma pessoa apega-se tanto a uma personagem e não merece que ela morra no final da história.
Fez uma pequena pausa, olhava agora para o livro como um simples objecto, algo a quem já tinha sido tirado tudo. E foi aí que observei pela primeira vez a beleza dos seus olhos verdes. Adorei o vestido que trazia e a forma como lhe moldava o corpo, sem nunca ser justo. Encobria as formas, o que dava mais realce ao seu olhar penetrante. Um que nunca deixa transluzir o que se está a pensar. Por isso me senti nervoso quando senti necessidade de me explicar
-Desculpe, podia olhar para a contracapa.
-Deve achar que sou maluca ao falar-lhe disto.
-Não, não. Muito pelo contrário. Talvez vá é pensar isso de mim.
Olhou para mim com uma certa hesitação e depois virou o livro, nem consigo descrever o espanto que ela sentiu quando viu que esteve a ler o meu livro, ao meu lado, sem o saber.
O homem da esplanada voltou a levantar-se da sua mesa e dirigiu-se à dos nossos dois amigos:
-Você é aquele homem da televisão, não é?
Enquanto isso:
-Mas, meu Deus… È você!
Olhou para como se tivesse encontrado um fantasma, no outro lado:
-È o que lhe tenho andado a dizer.
-Mas quem? Quem?
-Não sei, mas você parece-se mesmo como ele.
E continuavam nisto quando eu me decidi responder algo que depois me arrependi por parecer tão despropositado:
-Há quem diga que o enlevo do silêncio só merece ser apagado pela beleza da música. Por isso deixei-a ler enquanto procurava a reacção mais natural a um livro meu.
Surgiram de novo ecos da esplanada, era outra vez o nosso amigo a mudar de cadeiras, o que a faz olhar para lá pela primeira vez:
-Olha, não é o baixista dos Titãs?
-Onde?
-Ali – apontando – ao lado do apresentador da Rock TV.

domingo, 5 de abril de 2009

O Candeeiro - I

Os cabelos caíam-lhe como se estivessem destinados a formar uma muralha entre o resto do mundo e a sua face, esta alongava-se pelos olhos até a um livro que segurava com a mão esquerda. E foi isso que me intrigou principalmente, o livro, tinha sido escrito por mim.
Era num espaço em frente à biblioteca. As pessoas podiam ir buscar um livro e vir cá fora ler, junto a pequenas mesas que não tinham mais do que 2 cadeiras em redor. Pareciam pequenas ilhas. 2 casas acima havia uma esplanada que inundava o ar com as conversas que se escondem entre risos, como se fossem uma língua própria e impercebível para quem está longe. Mulheres passavam na sua nervosa dança sedutora – era sábado, às 3 da manhã -, os homens tinham ou como destino ou como ponto de partida o bar, geralmente ainda com um copo de plástico na mão, seguiam num misterioso murmúrio:
-Não, não. Aquela é que era mesmo boa.
A minha leitura não era muito atenta, já nem me lembro do que estava a ler. O que me interessava principalmente era quem se sentava comigo, absorta na leitura do meu livro. Tentava procurar manifestações que ela pudesse ter e relacionar isso com a parte do livro em que estivesse.
Da esplanada surgia um eco maior, alguém havia chegado e não me era estranho. Passei a ligar a uma idosa que se debruçava sobre o postigo, mesmo em frente ao café, e o observava atentamente. Todo o seu rosto transparecia um misto de nostalgia e admiração. Talvez o seu problema não fosse a insónia mas sim a solidão.
A cada minuto que passava sentia-me como num sítio diferente. Como se fossemos dois seres invisíveis aos olhos de quem passava, alguém que está longe das regras e vai contra um certo código que manda sentar em cada esplanada que se encontre. Sentia-me dono duma liberdade diferente, algo que ganhei não pelo que fazia, mas precisamente pelo que deixava de fazer. Tal como era aquela idosa perdida no jogo do tempo e que consciente disso olhava agora para a Lua, como uma referência. Um ponto que garante a existência de algo transcendente.
Acho que nesse momento, mesmo que quisesse, não seria capaz de me levantar da cadeira. Era como uma força que obrigava a nada fazer até atingir um ponto que passávamos a estar de tal forma enlevados pelo que nos rodeava que só depois de o termos atingindo, seria possível sair.
De repente, ela deixou cair umas gotas que lhe tornavam o rosto ainda mais enigmático. Olhei para o livro e reconheci a parte. «Bem me parecia ser um pouco dramático, mas eu também não sou coração mole», pensei. Levou a mão esquerda à face e enxugou as lágrimas, deu um toque no cabelo num acto que lhe dava ainda maior graciosidade e continuou a ler.
Enquanto isto, alguém esmiuçava parecenças sobre o efeito do álcool:
-Tu não és aquele da televisão que agora se me esquece o nome?
Interceptando-o com o indicador e piscando involuntariamente o olho. Levantei-me para ir procurar outro livro. Quando regressei, o outro, num igual estado, procurava-lhe incessantemente:
-Quem? Quem?
Reparei ainda num homem que se sentava sozinho e decidiu mudar-se para outra mesa, já era segunda vez que o fazia. O nosso amigo continuava com a sua inquietação:
-Já vi essa cara em algum lado.

P.S: Voltei basicamente pelo mesmo motivo que fui: puro instinto. (ou talvez vontade de partilhar)Não prometo posts diários, longe disso. Mas umas coisas de vez em quando.