Não é necessário que saias de casa. Fica
à mesa e escuta. Não escutes, espera apenas.
Não esperes, fica em silêncio e só. O mundo
virá oferecer-se a ti para que o desmascares,
não pode fazer outra coisa, extasiado, ´
contorcer-se-á diante de ti.

Franz Kafka, "Aforismos"


sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Reflexo

Por vezes desaparece, que efeito, e mesmo depois de ter estado deste lado, ora fugindo para um lado ou para um outro. As poeiras que se notam cair pela luz que escapa da janela escutam cada passo, movem-se em espiral depois de um suspiro maior, acompanhando-os até se transformarem num ponto que vai diminuindo no horizonte. Outras fica por perto, voltas e voltas sobre o soalho causando sombras e pequenos movimentos em velhos pedaços de madeira, noto aí as poeiras mais inquietas até que, distraído que estava pelo remoinho de pós, de repente surge e perpetua-se. Olhos fixos, os cabelos indo para trás obra de um movimento irregular por parte da mão, deixando-a por isso cair até aos lábios, onde dedos se cruzam e esquecem deles próprios, entretidos em reconhecer terreno, feições. Há pequenas inclinações por parte das pernas, o que me faz prestar novamente atenção ao raio de luz que vem da janela, até estas ganharem consistência e, então, ser o tronco o objecto em que a mão vagueia, sem que do olhar tenha existido um pestanejar, como se de algo mecânico embora, ao mesmo tempo, instintivo se tratasse. Senta-se, as palmas estendidas pelo chão, o olhar vago ocupando o espaço que fica entre os pés, escapando à parte que tenho estilhaçada ao nível dos seus ombros, pequeno segredo entre os dois.

P.S: Boas festas para todos.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Distorção

Ao passar junto aos altos espelhos via-me alongar. A rua descia até um pequeno cruzamento, com a calçada a fazer-se sentir debaixo dos pés, havia chovido há pouco e pequenas areias rolavam, saídas das pequenas ramificações que as haviam prendido. O olhar ora aí, posto no chão, ou de perfil, com o braço contrário a cair até ao bolso, vendo-me gelatinar em montras momentaneamente sem nada, vãos de prédios cujos arquitectos tinham permitido a entrada da rua e, por consequência da ocasião, também a minha. O passo não se tinha alterado, nem o comprimento médio dos edifícios, mas reparei que as pontas do cabelo se iam perdendo, já a saltar para o resto da cabeça e início do tronco. Continuei a descer, sem sentir mudanças na posição, sem notar diferença no vento que não fosse pequenas folhas e papeis a girar quase nem notava. A rua cada vez mais prestes a rasgar-se em duas e, no reflexo, ia-me aproximando cada vez mais da minha sombra, presa aos calcários e granitos que havia deixado para trás, suavizando entre areias, restos de lixos e imperfeições da calçada, à frente uma forma estranha a simbolizar o que apostava serem os meus sapatos, ao mesmo tempo que sentia, directamente na face, o vento que vinha de frente. De seguida tive a sensação de ter dado um salto se me aperceber, ao me ver como destino de buzinas de carros, aproximando-se furiosamente, longe dos reflexos e de procurar saber se já estaria totalmente recomposto, apercebendo-me que estava no meio da rua, tendo de escolher rapidamente uma das duas ruas que agora haviam surgindo para escapar ao contacto com o ferro dos automóveis. Uma aparece como subida íngreme e de mau pavimento dando a um miradouro, a outra caminho plano entre intermináveis e simpáticas lojas e cafés.

P.S: Mais uma aparição do que um regresso.

À Mafalda, que me faz sentir na obrigação de escrever. :P 

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

(...)

Tenho de pedir desculpa a quem segue este blogue por esta ausência, especialmente por além de nem ter publicado também não tenho passado muito tempo a ver outros que gosto, de pessoas que durante todo este tempo foi conhecendo e aprendendo a admirar, pelo que revelam no que escrevem e vão escrevendo. Houve muito que aprendi e ainda aprenderei por aqui.
Apesar de ainda não sei quando voltarei a escrever assiduamente, pois prefiro apenas voltar quando isso acontecer, e acho que esta paragem vai-me fazer bem. Até lá vou prometer estar mais atento.

P.S: Pedido de desculpas um pouco maiores à Mafalda e à M. :P

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Não é necessário sair de casa.
Permaneça em sua casa e oiça.
Não apenas oiça, mas espere.
Não apenas espere, mas fique sozinho em silêncio.
Então o mundo se apresentará desmascarado.
Em êxtase, se dobrará sobre os seus pés.

Franz Kafka

sábado, 3 de julho de 2010

Day 20 - Your favorite song at this time last year



Entre muitas outras, acho que esta repetiu-se algumas vezes o ano passado.
Acabei assim o desafio, e tenho de agradecer à Mafalda, não só por assim ter tido o que postar, mas principalmente porque ao longo destas músicas acho que percebi mais um pouco não só de música e dos meus gostos musicais, mas também de mim próprio. Espero que tenham gostado, pelo menos de algumas, e Obrigado Mafalda. :)

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Day 19 - A song that makes you laugh


Esta música parece-me como uma afronta a todos os obstáculos que possam aparecer, e mesmo tomando consciência de falhanços que possam acontecer, agarrar em nós próprios e dançar entre todos os cantos. :P

Day 18 - A song that you want to play at your funeral


Acho que nunca pediria uma canção para passar no meu funeral, não vejo sentido nisso, mas se tivesse de escolher - e tive - seria claramente esta, pela mensagem que transmite, pelo espiríto da música. Acho que muitas interpretaçôes podem ser feitas, mas para mim esta música é incrível pela forma como tenta transmitir uma espécie de continuidade que se deve tentar manter, apesar de tudo o que possa aparecer tentar manter a nossa humanidade, por muita ingénua ou estúpida que possa parecer, fazer com que prevaleça e através dela usar o amor, e nesse estado sim, completar-mos. Riders on the Storm é um excelente título.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Day 17 - A song that you want to play at your wedding

Wonderful One


A resposta a este tema foi quase imediata, apesar de nunca até aqui ter pensado no assunto, e também achar que mesmo assim não a ponha a tocar, foi mais a escolha de uma música que tem claramente alguém especial como destinatário, com uma letra e mensagem com que me identifico, e com o Jimmy Page em guitarra acústica. :P 

Day 16 - A song that you listen to when you’re sad

Esta música é para mim como uma neura, repito alguns frases da música constantemente, normalmente em situações em que pareço ter alguém no meu cerébro a olhar para mim e a dizer: "Where is my mind?". Foi escolhida para banda sonora de um dos melhores filmes contemporâneos, Fight Club, e encaixa perfeitamente no espírito do filme, o que para quem viu o filme já deverá dizer muito. Sem dúvida uma das minhas músicas favoritas.

domingo, 27 de junho de 2010

Day 15 - A song that you listen to when you`re happy



Não é que oiça particularmente esta música quando me sinto feliz, nem acho que mude muito em relação às músicas que normalmente oiço, mas acho que esta fica bem no tema. :)

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Day 14 - A song that you listen to when you’re angry


Talvez a música mais pesada entre as que gosto, talvez  aquela em que a letra vá também a um limiar entre a racionalidade e a raiva que me permite em qualquer altura identificar-me com a música, mas sim, principalmente quando estou mais zangado, e que ao mesmo tempo também me permite acalmar um pouco. Adoro ver - e ouvir - o Jimmy Page tocar guitarra com um arco para violinos.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Day 13 - A song from your favourite album


The Doors. Esta foi a escolha em que estive mais tempo a pensar, e também a única que me obrigou a fazer alguma pesquisa ao meu gosto musical, a forma como forma feitos e maneira como me marcavam e ainda marcam, a forma como os considero originais. Não posso dizer ao certo que é o meu favorito, mas está entres os meus favoritos, num grupo final onde tambem tinha albuns como Nevermind, Incesticide e In Utero dos Nirvana, Are You Experienced e Electric Landyland de Jimi Hendrix, Closer dos Joy Division, Led Zeppelin I; II; III e IV dos Led Zeppelin, The Bends e In Rainbows de Radiohead, Surfer Rosa e Doolittle de Pixies.
Acho que The Doors, o album de estreia dos The Doors, ganhou pela originalidade, pela marca que ainda deixa, o carisma e espirito do album e da banda, por ser o album em que surgiu musicas tão importantes para mim como "Break on Through", "The Crystal Ship", "Light my Fire" - a primeira música alguma vez escrita pelo guitarrista da banda e que chegou a número um rapidamente, sei-a de cor -, "Back Door Man" e... esta fantástica "The End". Sujeita a já diversos covers, que aparece no início do mitíco filme Apocalypse Now, e que sempre que a oiço me deixa num outro estado, como sujeito a uma verdadeira sessão de rock psicadélico, confrontando-me comigo mesmo. Simplesmente, adoro o poema. Se "People Are Strange" e "Riders on the Storm" fizessem igualmente parte deste album então aí é que não havia mesmo dúvidas quanto ao favorito.

terça-feira, 22 de junho de 2010

(...)


Os pés sentiam calçadas, asfalto, escadas algumas vezes. Um passeio por ruas onde poucos carros se cruzam, e, quando o fazem, enchem o caminho por completo. Em redor, apenas o barulho de algumas janelas a abrir, de passos a fazerem eco fazendo tomar noção de sítios ao lado, alguns estabelecimentos abertos, outras pessoas que passavam e depressa se escapavam noutro emaranhado de becos qualquer.
-Não andamos em voltas? Isto é tudo igual, ruazitas pequenas a subir ou descer... Tenho a sensação de já aqui ter passado.
-Acho que não. - levantou a cara, deixando o olhar prosseguir até onde podia - Pelo menos não me parece. Andamos mais um pouco e depois vê-se, tenho a certeza que não devemos estar longe.
-Mas ao menos conheces a zona? Sabes mesmo onde isso fica?
-Sei, sei. Como te disse, perguntei-lhe ontem, é só subir ali. E já passei aqui algumas vezes.
Os seus passos tornavam-se rápidos em comparação com os dela. Tentava andar mais devagar, a olhar para o que o rodeava, como à procura de uma indicação qualquer. Virou-se para ela:
-Queres parar um pouco? Queres ir a um café?
-Não, não, não é preciso. Porquê?
-Está calor… - para um pouco -, podias querer beber qualquer coisa.
-Agora não tenho sede.
A rua em que seguiam estreitava em poucos metros, ficando practicamente entregue a casas e passando de mero asfalto a escadas de calçada. No cimo, olhando de relance, viu-se passar um carro. Ele virou-se rapidamente para ela.
-Estamos quase. Aposto que dali já se vê.
-A sério?
-Sim. Estamos perto, anda.
Continuaram mais um pouco, até ele reparar que a deixava novamente para trás e que agora tinha na cara uma expressão de incómodo. Ele parou a olhar para ela.
-Dói-me o pé. - disse-lhe.
-Dói-te o pé?
-Sim. Não sei, é mais ou menos aqui. - e abaixou-se indicando onde a zona, aumentado a cara de dor.
-E agora? - voltou momentaneamente a cara em direcção ao topo das escadas, deixando cair o braço.
-Não sei... parece-me ser um dedo qualquer...
-Doí-te muito? Queres parar?
-Sim... um pouco.
Sentou-se no passeio, apoiada na parede de uma casa e no ombro dele. Ele fez o mesmo, tocando-lhe em seguida ao de leve no pé. Ela mexia na mala, que estava ao lado das pernas cruzadas. Tirou a máquina, e tinha-a agora segura, à frente dos ombros, pronta para disparar enquanto olhava em volta, à procura duma imagem. Ele seguia-lhe os olhos.
Um miúdo passou a correr, vindo do nada, com outro a surgir de seguida do mesmo local, parecendo que quase a cair. Os dois faziam uma espécie de grito que se misturava com sorrisos e ficou como eco entre os prédios até desaparecerem atrás de um. Um homem veio à porta dum café a bater com os pés e bracejando enquanto lhes gritava, por momentos cochichou qualquer coisa para dentro sem de lá receber sinal, acabou por olhar para cima e ver uma mulher apoiada à janela, os dois abanaram a cabeça e trocaram meia dúzia de palavras, olhou de novo para o sítio onde deixou de os ver e acabou por entrar. Ela fotografou as suas pernas enquanto corriam, no instante em que o primeiro já se preparava para virar. Os risos perdiam força à medida que se enfiavam cada vez mais no resto da cidade.
-Apanhaste-os?
-Sim, mas a foto ficou mal.
-Deixa ver. - e chegou-se mais perto, olhando para a câmara.
-Já apaguei. Não valia a pena deixar.
-Gosto daquela casa - apontou - é um bocado antiga mas parece ter qualquer coisa, não sei dizer o quê.
-Hum... não gosto muito. A fachada não me parece nada demais, nada nas varandas... achas que vive lá alguém? - os cabelos taparam-lhe a face quando se virou para ele.
-Não sei, talvez. Pelo menos eu acho não me importaria muito. Parecem ser umas paredes com mais que tijolo e cimento. - Chegou-se para trás, levantando o braço direito e deixando a mão suspensa no ar, frente à boca que parecia dizer alguma coisa. Os olhos ficaram mais pequenos, com o cabelo a cair pela testa. Os joelhos estavam levantados, sobre as pernas cruzadas.
Enquanto isso, a câmara estava agora caída sobre as pernas dela, com as mãos por cima; os olhos estavam baixos. O vento fez uma janela abrir ligeiramente a voltar atrás num instante a seguir, levando consigo o ar que tinha apanhado e movendo o resto do que foi uma cortina. Os olhos dele voltaram a pestanejar, repetindo o gesto muitas vezes, até que abanou ligeiramente a cabeça fechando-os um pouco. Reparou como ela estava, e tocou-lhe a mão, massajando-a lentamente, olhando-a sem que ela se movesse. Levantou por instantes a mão para lhe retirar a câmara, que olhava agora como se quisesse recordar como funcionava; esteve assim alguns uns segundos. As mãos mantinham-se juntas, até ele segurar na máquina e, inclinando-se um pouco para trás, tirar-lhe uma fotografia. Quando baixou um pouco a máquina, destapando a cara, ela reparou que sorria.
-Não gosto que me tires fotos assim. Fico com um ar de parva.
-Então estas podem ficar para contrastar com todas as outras que tiras. - disse, sorrindo. Ela virou-se para a sua frente, escondendo com os cabelos o sorriso que se notou pelo barulho diferente da respiração. Voltou-se de novo, a disfarçar um pouco o sorriso. Ele tinha a cara apoiada na palma da mão. Olhavam um para o outro. Na casa janela abria e fechava.
-Vamos? - perguntou, um pouco depois, ainda na mesma posição.
-Sim, - respondeu mantendo o sorriso, e ligeiramente subindo o seu rosto - já estou um pouco melhor.
Ele levantou-se de pronto e, olhando-a, estendeu a mão, ajudando-a a subir. Sorriram um ao outro quando retomaram a caminhada, conversando e virando-se constantemente um para o outro. A máquina estava segura no ombro, e ia fazendo um barulho de quando em quando ao deslizar pela roupa.






Na parte final deste conto, enquanto o escrevia e, entre outras coisas, lembrei-me deste filme, e de imagens como esta:

Day 12 - A song that describes you



È um tema difícil, por isso decidi por uma música que apesar de me rever em muitas coisas especificamente, não deixa de os abordar de uma maneira mais geral, sem tirar nada.
Uma das melhores músicas que conheço, excelente melodia, excelente voz, boa letra.

domingo, 20 de junho de 2010

Day 10 - A song from your favorite band


Nirvana. Não sei o que posso dizer hoje, acho dificil para mim falar de Nirvana sem ao mesmo tempo falar do que representa para mim, as letras, as melodias, Kurt Cobain... Também é o medo de focar só um aspecto quando amanhã posso me rever mais noutro como tantas vezes acontece, e assim não gostar da sensação de me associar apenas a alguma coisa, acho que tem de ser a quase tudo, e sobre isso seria demais para falar aqui. Acho que posso só acrescentar isto, o facto de não os considerar os melhores, considero Led Zeppelin, mas serem os meus favoritos por um todo que nem sempre consigo explicar.

Muitas noites já os tive como exclusiva banda sonora.

sábado, 19 de junho de 2010

Day 9 - A song that makes you fall asleep


Ao contrário do que pode sugerir o tema, eu adoro esta música. Aliás, é a minha música favorita do séc.XXI, do meu albúm favorito do séc.XXI, In Rainbows, daquela considero ser a melhor banda da actualidade, Radiohead. O efeito de dormir é algo que é consequência da música em si, como um estado intermédio que a banda procurou colocar na melodia, e que ficou excelente.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Day 08 - A song that you can dance to



Não é que esta seja propriamente uma música para dançar, mas a verdade é que simplesmente odeio a grande maioria da música de dança que conheço e hoje em dia está na moda. Interpretei o tema como uma música que me dá vontade de mexer, não é é bem para dançar. Dos Rage Against the Machine, a melhor banda de protesto, e que nos seus concertos pendura uma bandeira em tamanho gigante com a foto de Che Guevara.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Day 7 - A Song That Reminds You Of A Certain Event


Concertos. Não por esta música em particular, que não deixa de ser espectacular por isso, mas pelo artista em si, Jimi Hendrix. A ideia que tenho de música ao vivo vêm principalmente dele - e também um pouco de Led Zeppelin, Joy Division ou Nirvana. Talvez mais do que o talento absoluto, para mim acho que vêm ainda este espírito que nele encarnou e se prolongou na guitarra, é algo único. Acho que qualquer banda de rock, e não só, deveria ter nas influências Jimi Hendrix mesmo que não seja fã pelo que mudou depois dele, depois de "fazer com a guitarra aquilo que ninguém sonhava ser possível", e sobretudo a forma como o fez, tão pessoal e única. Woodstock deve ter sido o festival do século, e Jimi Hendrix o seu principal protagonista.

P.S: È neste concerto que, entre outras coisas, ele incendeia a guitarra. Adoro o olhar da rapariga aos 8:52, como a perguntar: "Onde estou...?".

terça-feira, 15 de junho de 2010

Day 6 - A Song That Reminds You Of Somewhere

Madredeus - Alfama


Alfama. A maneira como as casas saltam para aquelas estreitas ruas, os becos que se encontram, as pessoas que ainda lá habitam... Alfama é uma cidade dentro da cidade, é um ambiente próprio que ali se formou desde o tempo em que os mouros foram expulsos do Castelo e tiveram de descer a colina. Alfama não é só uma espécie de terra encantada pela forma como está construída, não é só os bares importados que ultimamente a têm invadido, nem é só o Miradouro de Santa Luzia ou alguns monumentos, o electrico a estreitar entre ruas, prestes a saltar da linha, Alfama é sobretudo uma curiosidade constante, a possibilidade de mudar de mundo com um simples passo, de num lado estarmos a passar por uma tasca onde ainda se pode ouvir vozes rijas, a possibilidade de descermos uma escada cheia de gatos enquanto por cima de nós estará talvez um quarto ou outra qualquer divisão de uma casa, de vermos pintores e guitarristas de rua, a possibilidade de vermos algo vivo e independente, e de ao mesmo nós descobrirmos a nós próprios enquanto andamos, e nos rendermos a algo maior.

sábado, 12 de junho de 2010

Day 4 - A Song That Makes You Sad



Não é que considere esta uma música triste, muito pelo contrário, mas ouvir Joy Division é sempre um confronto, é como olhar um espelho e ver os nossos medos a tomar forma e moldar-nos a face. Contudo, é algo que me faz bem, é algo que acaba como que me fazer seguir em frente, melhor, assim que passe o embalo, mas até ele passar é sem dúvida uma mistura de sentimentos e pensamentos negativos, e esta música, com esta melodia e principalmente com esta letra em que tanto me revejo, tanto de forma geral como num situação em particular, bate fundo em mim. Sem dúvida, uma das minhas músicas favoritas.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Day 3 - A Song That Makes You Happy



"I think this is a song of hope..."

Muitas vezes passava pelo Chiado e nem sempre com grande ânimo, mas às vezes estava lá um homem com uma guitarra eléctrica sempre a tocar esta música, e ouvir esta música, ainda por cima em pano de fundo, sempre me deixou feliz. Sempre que o vi deixei-lhe lá umas moedinhas.

(Idiota, estúpido, otário, etc)

Há momentos em que adoraria ter o rosto transfigurado, em que acho que seria melhor ter dificuldades em falar, em que seria melhor manter sempre um escudo pois assim, perdido pelo passado como por agora estou, não consigo nem devo tentar uma viragem repentina como se tudo se podesse apagar. Fizesse isso, tivesse tido mais cuidado, e ontem não teria visto umas lágrimas totalmente injustas para quem as chorou, e que não esquecerei nem me perdoarei. Apesar de ser quase um insulto comparar, também o meu coração não ficou grande coisa. Caminhar por ruas largas e de prédios enormes, de noite, e não ouvir mais que murmúrios contidos ao meu lado, vindos de alguém que gosto... onde qualquer palavra minha me parecia pouco, mas ao mesmo tempo demais.
"-Só mais uma coisa: aconteça o que acontecer, não quero perder a tua amizade. Pode custar agora, mas sei que é isso que quero."
Eu também...

Day 2 - Your Least Favorite Song



Uma escolha difícil novamente, mas aqui por talvez não ter percebido bem o tema. Escolhi uma música que apesar de até gostar não acho que seja uma boa música, parece-me ter uma letra algo pretensiosa e que de certa forma me parece seguir apenas um ponto de vista, além de abusar dum ritmo fácil que assenta bem e fica no ouvido, mas sem grande complexidade. Apesar de em certas alturas me enquadrar nela, no gosto muito do espiríto da música, e não customo gostar de mim quando preciso de ouvi-la.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Day 1 - Your Favorite Song




20 dias com diferentes temas. A primeira escolha foi difícil mas acho que a mais justa.
Desafio da Mafalda que eu só podia mesmo aceitar. :)

sábado, 5 de junho de 2010

Estava num bar de praia, ontem com colegas de curso ao final de tarde. Estavamos em roda a conversar e sem notar aparece uma criança que deveria ter uns 2 anos, um pouco à frente da mãe, e para ao meu lado com uns olhos enormes, como que surpreendida com algo na minha cara. Ficou assim uns 3 minutos, algumas vezes voltando para a mãe e depois regressando. Ao meu lado riam-se, dizendo frases como "ela gosta muito do Nuno" ou "que engraçado.". Apesar de também eu achar piada, a minha primeira reacção e a que perdura é a de ficar a pensar no que seria que ela olhava e porquê.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Curtas



Da colectânea "Paris, Je T`aime", a curta que de longe mais gosto e que é de um dos meus realizadores favoritos, Gus Van Sant. Incrível como mesmo em pouco mais de 5 minutos consegue manter a sua linguagem e dar um filme onde à primeira vista não se passa nada, deixando-nos entrar no seu mundo.
Um frio matinal que me entorpece os ossos...
 um azul escuro que precede o raiar
                                                        e cobre a paisagem em redor.
De pulo não me levante
- num salto à velocidade certa -
e minhas mãos, meu corpo
arrisco.

A um sorriso não sorrir
ao percorrer ruas não chegar a vontade de chorar
[de olhos baixos...
- não reparando em sombras, ouvindo gritos, gatos em telhados -
andando lentamente por calçadas que se estendem
[e num simples virar
a outro mundo chegar.

Chegue eu
à rua onde ainda todos dormindo
no chão bate primeiro o Sol.


sexta-feira, 28 de maio de 2010

Mal a mim regressam os olhos e imagens aparecem. O ar deixa de circular, as vozes que fazem parte de ruas e prédios são postas de parte, aparecendo ao invés gatos que se escondem em telhas, um saco em remoinhos na calçada, um autocarro que vem quase vazio ao fundo. Ando sem atentar aos passos, escapo passadeiras, noto que nas janelas ninguém. Entre esquinas surgem pequenas praças, ruas alongam-se num asfalto interminável, ligeiras inclinações.
Esgotado este mundo escondido, a simples dois passos dos quiosques que multiplicam, de esplanadas, entradas subterrâneas para parques, metros, lojas de outros mercados, portas de diversos feitios e nomes mas muito semelhantes, rostos cansados, rostos alegres, rostos sobre pedras despercebidos... e a vontade de chorar aumenta. Continuo andando, com a minha Irís em forma de barragem, segura mas prestes a transbordar.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Espontaniedade

Adoro sorrir de forma espontânea, e normalmente esse sorriso acontece em mim quando vejo actos espontâneos que demonstram algum sentimento que me agrada, como por exemplo a celebração da vida de uma forma genuína, revelando um espírito original, único. Como uma vitória sobre todas as limitações do ser humano, e que se têm de demonstrar sempre, ganhando assim um significado ainda mais forte, de luta e máxima dignidade.
Só podia mesmo ser do país de Che, de Borges, do Tango...

(Aconselho a ligar o som. :P)
O barulho das ondas em baixo, na arriba, o vento em força, obrigando-me a meter um pé atrás que por pouco não me fez tropeçar numa pedra. Olhei em volta e as paredes do meu quarto haviam desaparecido, agora dobrado observava a agonia das gaivotas, rápidas em redor da colina: Nas minhas mãos não notava mais o cobertor com o qual tinho adormecido à janela. Sentia o pó que debaixo das minhas solas se ia formando, os meus passos para à frente e para trás. Julgo aperceber-me do mar escalando, à montanha retirando pedra. Pingos nas ondas.

sábado, 22 de maio de 2010

Olho-me ao espelho e é um bocado das minhas mãos que desaparece, metade do cabelo, contornos que o tacto ainda reconhece, um tom de pele cada vez mais pálido. E é um esptáculo tão horrível que me aprisiona e me obriga a assistir, como longe dele nada se deteriora-se, altera-se. De olhos fixos, pés imóveis, sentindo por dentro movimentos constantes sem resposta dada.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Contra a parede

Estava simplesmente com o telemóvel na mão, não era mais que uma irritante mensagem da Vodafone, e deixei-me ir... 2-3 segundos depois notei uma pausa e todos os olhos em mim, uma amiga a sorrir pergunta: "Inês?". E neste momento tento disfarçar o melhor que posso o espanto que sentia interiormente: "Hum?". Um colega ao meu lado: "Tu disseste Inês.", ao que eu respondi que não, que não tinha dito nada, a forçar um leve sorriso e a olhar em redor. Não me lembrava de nada, só me lembro de ter o telemóvel na mão e estar a olhar para ele, sem pensar em nada, não tenho na memória que tenha dito o nome. Eles não sabem quem é, ou melhor, não sabem o que ela representa para mim, e assim escapei entre: "Tu devias tar a escrever uma mensagem e disseste o nome.". E assim passou, não respondi e só uma hora depois é que, em tom de brincadeira, o mesmo amigo voltou a dizer o mesmo, mas também aqui sem consequência. E assim espero que continue, que ninguém se lembre desse episódio perto dela ou das amigas dela. Pois apesar de estar assim, neste estado em que além da dor física que se apodera do meu peito e por vezes o andar, também o meu inconsciente se apodera desta forma de mim e me impede de esquecer. Não quero lançar um bidão de gasolina deste tamanho para um incêndio que apesar de gigante se encontra controlado. Os olhares que dela recebo ainda são intensos, mas ao mesmo tempo inquisidores, ela cansou-se por minha culpa e seguiu o seu caminho. Prometi a mim mesmo que apesar de tudo respeitaria essa escolha, e ainda que seja muito difícil e por breves instantes quase que me deixei ir, considero que até agora tenho cumprido.

Não quero nem imaginar...

sábado, 8 de maio de 2010

Love Hurts



Tenho andado com muito ruído em volta das minhas palavras, o que não me deixa com grande vontade de escrever e assim até não o anular acho que terei pouco para publicar. Estas músicas substituem-me.

sábado, 1 de maio de 2010

No comboio tenho um café que vou segurando com a mão direita e de seguida despejando em golos, aquecendo-me a garganta. O copo fica entre mim e uma janela à minha frente, onde em instantes paisagens sucedem-se de forma contínua. De dentro o tempo só passa no relógio do telemóvel, o qual tenho escondido no bolso sem o notar apesar de notar o tempo num sítio que apesar dos passos que entram e saíem, que pelo meu pescoço ou em frente aos meus olhos se deparam, não muda. E não movo o olhar do que de lá fora aparece em fotografias instântaneas. 

terça-feira, 27 de abril de 2010

Artérias ganham a forma de espinhos, vias nasais de repente insuficientes, pernas não habituadas ao toque da calçada que juntamente à força do vento torna-me irriquieto, mas facilmente derrubável. O sistema nervoso um assador, o calor concentra-se no meu pescoço, sustento toneladas pelas costas. Vejo-me concentrado num quadrado, e de olhar baixo vou largando uma bola de papel amarrotado e vê-la subir e descer, começa a parar e devolvo-a ao ar, tentando tornar mais fresco o ar, imperceptível o Tempo.

Atmosphere

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Olhei para o lado e reparei em mim, a saltar da arriba. O movimento, com certeza ele, denunciou-me e fez os meus olhos, por breves instantes, levantar. Ficou somente a paisagem inicial e uma pequena marca onde anteriormente estiveram os pés, e deixei-me permanecer sentado, com o cabelo a servir de molde ao vento, enquanto no mar o meu corpo entre ondas e rochas se afogava, tocando e ouvindo a espuma que se havia formado.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Actualmente não consigo fazer o simples relato dos sonhos que banalmente tenho e as situações que de improviso imagino, pois acabada a primeira linha o sorriso dá lugar a gotas que me moldam a face.

As ondas deixaram o lago
e nestes momentos os pássaros voam a rasar.
As gotas não mudaram na nascente
e entre as rochas, escorrendo
são como um atestado à eternidade.

Mas do céu nenhuma gota
e o tom que escureceu as nuvens nos últimos meses continua
Observando na foz sedimentos que ficam.
[Cobertos no fundo ou expostos no areal.
E numa superfície de cristal
 - Um grão de areia ao Sol? -
pequenos tornados começam duma brisa.
Enchendo-a do gênero de folhas
que em Outonos caiem e correm como em sopro
na direcção do mar.

Deveria furar as coberturas.
Dar marteladas nos meus dedos
cozer a minha boca.
Pelos mesmos poros que em tempos crivaram a respiração
soltar o constante noveiro
- ouvindo em altifalante os agudos assobios do vento.

Que me destrua agora
ou algo...

sábado, 17 de abril de 2010

Àguas vão vertendo
e no interior já há as flores que secam.
Grãos aparecem com o levantar dos dedos
passando à mão um toque áspero.

O solo abate
e aquando de passos mais apressados
descola-se a rocha.

E o ar lembra o dos desertos
com seus montes despidos
e miragens ondulantes
[aumentando com os passos.
Posto o Sol
observo estrelas e imagino´
até das areias deixar de ter distinção
e ocupar espaço.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Levantei os olhos
e por detrás dos cabelos que abanavam - como troncos ao ventos
vi um areal ao horizonte
[comigo ainda em alto mar.

Os meus braços interromperam as suas braçadas
[e por segundos fiquei suspenso
com a boca criando bolhas
pelas pequenas ondas que me faziam subir e descer.
E ao ritmo da ondulação
também a ilha com as suas montanhas
[elas que capazes de esconder as nuvens
usa o processo de se mover.

E a esta distância
imagino-me deitado
[com o Sol a relembrar-me a existência de pele
e de olhos focados num ponto do céu
encontrando imagens da viagem até à areia chegar.

Sal a cortar os braços
raios a avermelhar as costas
olhos em nervos...

Retomado o corpo, o que ver?

terça-feira, 13 de abril de 2010

Não é que esteja destruído, mas apenas num outro estado.
"Eu é outro."* Consiga chegar-lhe.

*Rimbaud
O vento moldava-me o cabelo em correntes
e a areia que da terra se soltava
roçava como faca pelo meu corpo.
O ar quente dificultava-me a respiração
e o mar ali em baixo.
[Saltei.

Ouvi-me perfurar ondas
e na minha memória, em fragmento
a espuma que deixava para trás
 largando-se como um monte de folhas apanhado no chão
[caíndo noutro lado.
E simplesmente tornei-me nadador
sem sentir a diferença em respirar
ou o toque de águas frias
[o meu peito manteve-se quente.
com orgãos e ossos gritando-me para saltar.

Neste momento fiquei em reconhecimento
[levado com a maré para longe da costa, onde
longe de arribas somente no horizonte me deixe levar.


domingo, 11 de abril de 2010

Agora ando com o vento
e sou um saco que se levantou à sua mercê
[e sem rumo roda.

As ruas não têm mais nome
nem as cores se diferenciam - apenas cores e ruas.
Eu que era capaz do mundo alienar-me
e mesmo entre multidões passos e conversas chegava ao silêncio
[e sonhava
tenho agora todos os sons do meu corpo
a escaparem sem saber para onde.

A respiração tornou-se insuficiente
e vejo prisões em todo o lado.

- A sensação de nunca mais ver o Sol a descoberto
e a brisa que do jardim vinha e enchia os pulmões. -

A atenção separou-se da alma
e tornei-me aliado da dor.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Passado
deixas-me esquecer-te?

Em sonhos mergulhar.
Livre da prisão em que me sinto
e do peso que no peito encerro.

Quero correr, preciso correr
[sem sinal ver.
Atingir a mete já sem as pernas
e sentir que se poderia continuar para sempre.

Esquecido
sentar-me numa grande rocha
vendo as águas do rio correr.


terça-feira, 30 de março de 2010

E olho para o ar - pois o ar agora é tudo.
O horizonte não mais uma linha
que delimita e outros locais esconde.
Mas o efeito duma caixa de lápis na mão duma criança
rabiscando dum lado para o outro.

Os raios de Sol em força nos meus olhos.
Sinto-me cegar.


O sorriso duma mulher é o sorriso duma mulher. Que mais poderia ser?
Do mesmo modo o canto dum pássaro escondido entre ramos não pode ser mais que isso.
( - Porque os distingo então? - )


Nos campos as balas deixaram-se abandonadas
[roubando o lugar às sementes.
Há minas que se descobrem a passo, e interiormente se ouvem.
À primeira vista... saí impune.


Mesmo as infiltrações que chegaram aos lençois de água
na aldeia os poços não deram sinais de veneno nos baldes que se tiravam.
[E continuam a tirar-se.
Abatimentos soterraram árvores.
Em fuga asas bateram dando outra cor aos céus
[poeira levantou-se.

Carreiros que passos foram construíndo com o tempo
ao efeito dum repetido pisar de erva que acalcou o solo
são agora simples traços em mapas antigos.


Preciso respirar.
Da confusão tirar o que me alimenta e fez feliz
[e recordar.
Sair desta terra saturada
na qual os meus pés se tornam pesados e mascaram-se no chão
[não os reconhecendo.

Já que agora sem rumo, simplesmente andar por uns tempos.
Celebrar espontaneamente a beleza.
Consiga respirar.

sábado, 27 de março de 2010

Àguas frias
invadem o meu corpo. Não é de meu poder evitar.
E por entranhas oiço pingar.


(Quem me ouve julgará que ao invés foi a lucidez a afectada
mas... como vejo! ]


O corpo - ele -
que se encheu de buracos
sem ao espelho dar sinal de qualquer mudança.


È raízes que - nas suas divagações -
tentam ganhar espaço em redor, usando suas extremidades.
Ventos que me percorrem
e seguem novamente a sua rota, do outro lado.
Chuvas que não é a pele que tocam,
aumentando as albufeiras das barragens.
Ao mal olhá-las
as nuvens sugam-me o ar dos pulmões. E de branco
passam a escuras carregadas, num céu infinito.


O chão das modernas cidades
é hoje impermeabilizado, e não aceita a menor gota
correndo ela para um grande monte, onde escondida do Sol e seus raios, leva
recordação folhas desprendidas e outros como recordação de caminhos
ao mesmo fundo labiríntico onde mesmo sem nada
acabaria.


Há zumbidos pelo espaço
e rostos que se assegura já terem sido vistos, mesmo não o sido
e mesmo que capaz de adivinhar seus movimentos.
Algo que sai das mãos
quando se apalpa no ar o vazio por mero apalpar
.e depois em concha pretende-se recuperar
o que em alto já vai.
O peso da gravidade
levando ao chão somente ramos secos e leves ervas verdes...


Fiquei contigo
sem ti.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Nunca antes as minhas lágrimas haviam corrido a face e pingado o chão, a minha boca fazer gestos estranhos ao ritmo de não-sei-o-quê, as minhas mãos não chegarem para o cabelo e os joelhos obrigarem-me a torcerem-me com a falta de ar a contorcer-me.
Só mesmo tu, atrás de prédios que não noto, não deixo de ver.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Chega a noite
(no asfalto o calor das rodas impregna-se. Dos vidros
poucos são os rostos que atentam ao passeio)
e as paredes do meu quarto concentram-se
um sólido que ao passar dos ponteiros menor.
As subidas ganham mais inclinação.
(Uma criança lança uma bola pela calçada acima e espera que volte atrás.)

Ao fechar os olhos - por impulso! - o vazio ouve-se mais.
Como um folha de papel arremassada ao lixo e que no movimento ganha asas.
A distância faz as vozes que na minham mente surgem
mais ímpossiveis de reencontrar.

Surge a vontade
de simplesmente errar pelas ruas...
Passar prédios - não interessam quais... - e ser cruzado por carros.
Ver rostos -mesmo sabendo que os que se deseja não encontrar.
(Sucedem-se olhares aos quais não respondo...)
Longe, deixar o que o mundo manda fazer. E num jardim
entre as folhas que nas minhas costas caem, sentar-me.

Tentar com que o fogo que dentro mim mesmo sem oxigénio alastra
- e que pelas divisões invade em fumo -
não vá somente pela resposta fugaz de abrir as janelas.
 - Como sem o sonho deixado para trás - 
O verde tende a passar, a água falha em alguns cantos, os pombos levantam voo ao passar. 
Nas paredes que ficam infiltrações deixam-se...
por buracos perigosas correntes de ar.

sábado, 20 de março de 2010

Dor

Doí-me o coração, ultimamente têm-me doído cada vez mais, e desta vez não é metáfora nenhuma. Fisicamente sinto-o a pedir ajuda ao resto do meu corpo, a ter cuidado com movimentos rápidos, a tentar não me dobrar tanto, evitar esforços também - eu que até foi o melhor nas corridas de resistência na minha turma, e ainda esta semana cheguei a surpreender o meu irmão e algumas pessoas que estavam por perto durante um sprint que fiz.
O músculo que me doí é apenas esse, parece implorar por mais espaço, ou simplesmente deixar-se fluir. Talvez esteja a sarar, ou então pode ser o vulcão a libertar as últimas lavas, não sei. O que sei é que A amo mesmo muito, mais do que suspeitava, e agora não posso fazer nada por isso, agora já não. Parece-me ainda que, no único momento que me foi realmente concedido para fazer alguma coisa, era eu que, a meu entender, não podia. E assim, o silêncio que sempre imperiou e poderia ter criado um vasto reino, espalhou-se desornadamente pelas ruas, não deixando qualquer indicação. Com as pedras da calçada a caírem à minha frente, num espaço vazio que se abre sempre que possa tentar um mudar de direcção, apesar de vê-las no instante antes. Nem me atrevo sequer a tentar baixar-me e segurar uma nas minhas mãos a ver o que acontece, não me atrevo a desorganizar ainda mais.

"Por delicadeza perdi a vida." - Rimbaud

quarta-feira, 17 de março de 2010

Do canto onde estou escapam vazios.


Há bolhas que se soltam afastadas de mim
e deixam um espaço que se estende na atmosfera.


Os objectos afastam-se
do meu canto vejo objectos e mais a afastar-se
e o vento que trazia folhas na minha direcção mudou agora de direcção.
- Para onde?


Comigo a contorcer-me
a tentar ganhar espaço às paredes
com os dedos a raspar o soalho.
- Oiço as minhas unhas a provocar eco na divisão em baixo.

Na àrvore do pátio há um vidro em seu encontro...
Uma folha que se espalma
- que por corte se desprende, luz a mais incendeia, falta de espaço fica sem ar -
e luta para se manter verde.

Smokers Outside the Hospital Doors

sábado, 13 de março de 2010

Consciência do Fracasso

O sal apalpa-me o nariz, deixado como memória das ondas
- presente do Sol.

Da ondulação aos remoínhos podem ir meros segundos. Sinto o caos principiar. 
Preparo-me caíndo no barco - ao jeito dos cobardes -
deixando as tábuas pegar em canetas para nas minhas costas assinar.
Os olhos fecham-se, e nos ouvidos surge
o filme duma devoração que irá demorar.
E aos poucos vejo-o, as cenas aparecendo 
- obrigo-me a vê-lo -
ansiando por nele entrar, ansiando por o destruir.

E é esta a minha imaginação - tão desinteressante...

até esperar a chegada do orvalho
- notando-o ao raiar -
e que acaba por me despertar.
Onde dormi?

Tempo perdido...

Afasto - em tentativa - a maré dos meus sentidos
(Ela que tal como a brisa é de vontade própria.)
e na mão, em meu redor, nada encontro.
Uma venda que tento meter...

Um martelo já na minha mão, algo que a faça deter!
Que me lembre os rostos gastos que das avenidas escondem
(num prédio enfeitado de fendas uma criança sorri à porta)
e que apesar de tudo, de passo em passo, continuam continuam...

Sonhos em saco roto. No quartel dá-se o toque
e é confundir-me na rua numa marcha de soldados.

Algo que aniquile a minha sensibilidade
pois nesta ilha todos os olhares
- inclusive os dos mais apresados - me tocam. Todo e qualquer olhar

[me sinto incapaz de responder.
Nas minhas costas plana um falcão
[acompanhando-me o ritmo.
Alheia às hesitações que tomo 
[sobre qual rua subir.
Que calçada evitar, em que olhos me medir...

A noite pôs-se - de mau tom acordar as pessoas.
E não posso agora, como se nada fosse
estender uma mão vazia com um barco desfeito em plano.  - Desfeito por mim ou pelo mar?
Perdi! E nada mais me ocorre dizer.

Entregar-me-ei ao luar, às ondas 
neste barco que acabará por se desentregar - culpa dum fio de esperança? -
e até ao último momento em cima da tona
terei nas estrelas companhia imutável.

Acabará por restar uma fina cortina
- ao mesmo tempo porta -
duma cabana deixada ao tempo.
Cabana cujas janelas não suportavam ouvir a variação do vento

e não foram feitas para aguentar.

Na mente - e não só -
a imaginação do que poderia ter sido.
Enlouquecer pela vontade de regressar, - sou capaz de regenerar, um canto de pássaro ouvir
uma paisagem, um sorriso - da ângústia me soltar, viver!

Dum fio de seda cuidar... e nele crescer.
O mundo um novo rosto.
Do you love me?
or
Do you hate me?

Não consegues usar a indiferença. Nem eu...

terça-feira, 9 de março de 2010

Angústia

"Será possível que Ela me faça perdoar as ambições continuamente esmagadas, – que um final feliz compense os anos de indigência, – que um dia de sucesso adormeça sobre o vexame de nossa fatal incompetência.

(Ó aplausos! diamante! – Amor! força! – maiores do que glórias e alegrias! – de qualquer jeito, por toda a parte, – demônio, deus – Juventude deste ser; eu!)

Que os acidentes de feitiços científicos e os movimentos de fraternidade social sejam queridos como a restituição progressiva da sinceridade primeira?...

Mas a Vampira que nos faz gentis nos manda divertir com o que ela deixa, ou então que fiquemos mais malandros.
Rolar até ferir, pelo ar e mar exaustos; até os suplícios, pelo silêncio do ar e das águas mortais; até as torturas que riem, em seu silêncio atrozmente encrespado."

Arthur Rimbaud

I`m strange



People are strange when you're a stranger
Faces look ugly when you're alone
Women seem wicked when you're unwanted
Streets are uneven when you're down

When you're strange
Faces come out of the rain
When you're strange
No one remembers your name
When you're strange
When you're strange
When you're strange

People are strange when you're a stranger
Faces look ugly when you're alone
Women seem wicked when you're unwanted
Streets are uneven when you're down

When you're strange
Faces come out of the rain
When you're strange
No one remembers your name
When you're strange
When you're strange
When you're strange

When you're strange
Faces come out of the rain
When you're strange
No one remembers your name
When you're strange
When you're strange
When you're strange

domingo, 7 de março de 2010


O mar em frente solta espuma nas rochas.
Em riste os olhos na cor branca
que dança pela orla. O ar está seco.

As ondas o horizonte finda
em finais de tarde propícios ao alaranjar da água.
E o Sol é como uma boca que vai morrendo
enquanto em terra o sal se impregna nas fendas.

E do alto do declive
a cadeira principia a tornar-se pesada
e o vento - desordeiro como só ele -
tenta os ouvidos -  provoca os cabelos que se movem em resposta -
e pela planície os olhos procuram (nem que apenas por hipótese)
abrigos.

E entre os dedos
escapam areias e terras, grãozinhos que mostram textura à pele 
e que pelo solo se pisa.

Haja o contacto com as ondas
que pelo declive devem galgar e vencer o abismo
(sem contudo o derrubar)
e já livre do sal que corroí
suavemente refrescar.

Entre ventos e marés...
um simples canal. Próprio.



Foto encontrada neste excelente blogue.
(E grande parte da inspiração também.)

Uma excelente cena, dum excelente filme

O cinema é, na minha opinião, acima de tudo o jogo de imagens na procura de algo, o que quer que se queira ou não transmitir. Estas, a meu ver, são daquelas que se podem encontrar no final do arco-íris.

sábado, 6 de março de 2010

Uma folha levada dum ramo seco
que no chão acaba por se desfazer.

Pequenos fios lutam por manter-se
(como um rio a secar visto de cima e seus afluentes)
dispostos em espinha entre outras tantas folhas
(pequenos restos de madeira, pedras)
seres vivos que em trânsito deixam marcas. 


Sem matéria (a folha)
tomando em atenção o vento
pelaa esperança de nele uma voz, uma mudança de direcção...
que à arvore a acabe por fazer voltar.

Do quanto se despiu
ficou nos fios a lembraça da cor que era
e a noção do verde que pode ser.
No chão com risco de se decompor
suspensa o sentimento de prisão e influência do vento.

Ligada à árvore, a plenitude dos seus fios.
Um contínuo rejuvenescimento
[e cor.

quinta-feira, 4 de março de 2010

A Fronteira do Amanhecer

Felizmente, evitei que adormecesse, pois tal como sou o meu final poderia ser parecido. Além de evitar ainda muito...



P.S: Já é o terceiro filme que posto onde entra este actor. Claramente um dos meus favoritos, não só por entrar em bons filmes.

quarta-feira, 3 de março de 2010

...e caso alguém se tenha mantido invicto, a bandeira branca que ainda lhe noto atrás das costas - mesmo agora com as minhas armas em repouso - diz-me que a porta ficou, talvez, apenas semi-fechada. E se o que em tempos vi e permitiu a criação de telas, no silêncio continua a aparecer e sorrataeiramente cria um sorriso em mim, então posso dizer que os horizontes se alargaram, por trás dos montes estou seguro que os riachos não cessaram. E nenhum rio em que agora me refresque, sei que terá o pH concordante. Deixarei de lado a descalibrização, pois mesmo que em outras águas consiga não só entrar a fundo mas também aumentar a sua biodiversidade, não demorar até os riachos me aparecerem em mente, com as luzes que à noite a Lua e as estrelas nesses espelhos reflectiam.
Apenas nessas chamas, o frio não aparece. Somente nessas águas, me sinto em pleno para boiar. Nem que o risco de mergulhar em cinzas se torne real.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

(Um pequeno parênteses para a estupidez)

Estava pela net e descobri um site que permite calcular o valor de páginas na internet, como por exemplo o meu blog. Estranhei fazerem uma avaliação tão rápida - só precisei de colocar o link - e parece-me que se baseia unicamente nas visitas recebidas, mas mesmo assim $2369 é um valor que nunca suspeitaria. Embora, depois de fazer o mesmo execício, vi ser pouco comparado com os $21784.7 atribuídos com toda a justiça a um dos meus favoritos, o Pecado Original. O mais caro entre os que sigo.
Outra coisa foi uma amiga ter dito que eu lhe fazia lembrar este rapaz, Nick Simmons. Eu desconhecia a existência desse rapaz, e acho que sou um pouco diferente em termos de personalidade, mas se ele for minimamente famoso talvez explique uns quantos olhares.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Casulo

I
Um soalho onde faltam tábuas (outras ganham-lhes saudades)
     onde o som aparece, subindo baixando lascas
dando aos pés o alerta em relação aos espaços.

O carreiro que as formigas seguem - e que hoje é menor e menor.
Por sorte
deixam-se de notar ao crescer dos estalidos.

Tal como a tinta que das paredes se solta
- em consequência do apoio que o meu corpo suplica aos braços (efeito estranho) -
encravando-se nas unhas.

E uma voz aparece (com o tempo aparece ou eu faço aparecê-la)
perguntando-me que figuras são essas que eu faço na calçada.
- Sujeitas ao crivo dos senhores que se entreteem a oferecer camisas brancas de mangas grandes - (as quais por curioso que pareça se fecham nas costas.)
Parando então aí para com quem me chamou seguir viagem.
(Em passos dados junto de tantos outros que nunca mais voltarei a ouvir.)
Com as imagens da sala - que aos meus pés caía - no pensamento
voltando de repente quando num mudar de direcção alguém se lança sobre mim.

II
E aguardo em desespero o tempo em que se instale o Silêncio.
Silenciadas as vozes (não calar, apenas atingir outras que transmintam calor)
montar o meu mundo, com esperança que caiba na calçada.
Voltei a escapar. E hoje espetei entre pedras duas tábuas enroladas em cruz.
Subi por entre as raízes e os esgalhos húmidos
caídos de arvores que ja nao os reconhecem.
O oxigénio faltava-me, o oxigénio faltava-me
e agora aparece em toda a plenitude
cobrindo invisivelmente o espaço entre os seres vivos que do alto deste monte admiro
e um fantasma que ao primeiro instante - e apenas ao primeiro instante -
precisa de ser totalmente sugado
libertando no corpo o reservatório que se pretende encher.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

E agora fica o som frio e repetido do vento a subir pelo abismo, escaldando os ouvidos, arranhando as mãos pelas rochas, uma pedra em falso e o pé apoiado no ar, a sensação de queda iminente, mas já vista.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

I
Vejo um muro e regresso. Regresso sempre.
Do outro lado não me espera o beco duma noite escura
cor ambiente deste recanto em que me soterro
onde carros embora a metros circulam nos meus ouvidos
e deles apenas um pequeno vislumbre que não posso garantir
                                       [(não mais que uma luz arrastada)
entre duas paredes iguais.
Mas não subo. Simplesmente não subo.


E o alcatrão aumenta em frente dos meus pés
e a chuva caí sem que com ela me incomode
e a cabeça baixo assim que ao muro vire costas.

E todas as minhas funções são agora vistas por outros olhos.
Reparo que a mão me foge do meu corpo - desligada
assim a obrigada pelo movimento. 
O peito ainda que a contrair-se de frente ao obstáculo
(tentando em vão manter-se)
e a respiração ouve-se, pedindo a todo o meu corpo que respire e expire de seguida
tal como é normal hábito, como é regra. Sem sucesso.
Simplesmente acompanha a cabeça e assim vai-se descolando do corpo, estendendo-se
á frente do braço, perdida num ar que encontra diferente
e agarra-o. O ar.


Os cheiros que vinham - trespassando pelo cimento
são substituidos pelo da chuva
onde quer que a chuva possa pousar, e a agitação ganha forma.

Para trás o momento onde os relógios não entravam
e os ponteiros rodavam sem qualquer tipo de suporte, a outras velocidades.
O momento onde os calcanhares se elevam sem que os olhos reparem
e tudo parece possível.

II
Tão fácil seria se aos meus ouvidos uma voz ditasse o que não vejo, uma e outra vez.
Digo-o não por se tornar quase impossível perder, mas ao perder ser eu o único.
(Para sempre calando o meu intento.)
E dado o salto a certeza de não me ver em propriedade privada
[sujeito a olhar silencioso.
Deste modo apenas tomando o risco uma resposta será dada.
A realidade em busca do sonho.
Apenas no sonho me refugio. Um paìs em construção.

Vencido o receio que encontro
(em cada situação uma imagem, em cada detalhe um código)
procurar o silêncio não só no olhar - que nele tanto pode indicar -
(Uma voz de fundo, talvez, porque não falas?)
mas num lugar mais fundo. Um terreno possível de preencher.

III
Caso contrário, perdido em mim
o perigo de refugiar em pensamento
a existência não encontrada em essência.

E o alcatrão alonga-se cada vez mais
e nem um temporal notarei.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Muitas vezes me pergunto o que é válido em termos artísticos. Não sei se deve haver algum um objectivo específico. Não faço ideia. Mas se dependesse exclusivamente dos meus gostos, aqui estaria uma cena perfeita, apesar de practicamente não se passar nada. Apenas adoro. È uma cena que é capaz de me tocar sem eu saber porquê, como se desse para entrar dentro dela (ou pelo menos querer) e passar para outro mundo onde a realidade deixa de existir. Intriga-me duma forma irresistível.

Escorregou.
A noite passada tinha sido de chuva (ao contrário das outras)
e numa poça a sola entrou com velocidade a mais.

Era de dia há pouco e as nuvens ainda se cheiravam. 
De repente as mãos estancavam no alcatrão
e sentia-as a ferver de pequenas pedras que nelas entravam.
[Os braços estendidos em perpendicular às costas
o choque dando-lhe a sensação de algo quebrar.
Os olhos ainda apanharem o movimento da perna esquerda
galgando centímetros e levando-o com ela.
Flectiu a direita que havia ficado para trás
e com o olhar na manta de água onde estava, expirou.

Ouvia risos nas suas costas sem os distinguir.
Sentia-se observado e notava figuras que se aproximavam (irreais)
com as suas pernas e braços a mexerem-se em concordância.
O frio chegava sem que mudasse de posição.

Ao notar os sapatos mais próximos pelo barulho que ouvia agora melhor
subiu a cara para ver os colegas a chegar. A fila pela qual corriam tinha parado.
Tirou do chão a mão direita
e viu apenas uns pontinhos vermelhos sem lhe importarem,
voltou a espalmá-la para fazer subir a esquerda, com o mesmo resultado.

Uma roda formava-se e com sinceridade ouviu perguntar se estaria bem.
Ao ver uma mão estendida agarrou-se a ela, e acabou por subir
dizendo que sim, que estava. Olhou para o chão onde reparou numa marca deixada pela perna
e de seguida voltou-se para quem o tinha ajudado, movendo afirmativamente a cabeça.
Alguém disse algo atrás de si que não conseguiu perceber
e de imediato houve quem passasse.

Abriu as mãos sorrindo, e quem ainda restava voltou a correr.
Até ao fim da sessão manteve o seu ritmo (um pouco maior ao qual estava habituado)
mas sem o considerar demasiado no final.
Enquanto corria ouvia atento o que diziam
e levanta o olhar de vez em quando
tirando-o das sapatilhass dos seus colegas e do chão que também ele pisava.
Colocava um sorriso em algumas situações.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Levantei a cara e passei a linha em que a montanha
era cortada em perfil, caíndo pela encosta,
e os meus olhos cegaram momentaneamente.


Devo admitir que os raios me fizeram cair para trás
e bati com a cabeça e as costas em chão seco
que depressa me fez garantir ser ele pelo cheiro que o seu pó levantou
capaz de me fazer lembrar o ritmo da minha respiração.


O ar tinha a pressão contra si ao chegar aos pulmões
e as dores que sentia tornavam a terra confortável.
O silêncio apenas interrompido por cantares de passáros
e folhas ao vento eram um outro silêncio que aos meus ouvidos chegavam,
entrando sem pedir licença mas comigo grato por entrar.


Mesmo não vendo fechei os olhos relembrando-me assim o escuro de sempre
escondido nas minhas palpebras.
Aos poucos, deixei de respirar (ou notar que o fazia)
e o pó ia deixando de se levantar pela força do ar que expirava.


O vento nas folhas trazia a imagem
de espelhos de Sol aos saltos em cima de qualque copa
comigo de cabeça no tronco.
Olhando aos espelhos pensando neles sem pensar.


E por momentos o sono passou por mim
sem que deixasse de ouvir e cheirar
sem deixar passar as folhas que pelo vento à minha mão foram parar.


Sonhando seguro de ser verdade
que ao levantar veria tudo isto sem perder qualquer nível de sensação.
E depois de cheio escalaria o resto sem sequer me cansar.