Não é necessário que saias de casa. Fica
à mesa e escuta. Não escutes, espera apenas.
Não esperes, fica em silêncio e só. O mundo
virá oferecer-se a ti para que o desmascares,
não pode fazer outra coisa, extasiado, ´
contorcer-se-á diante de ti.

Franz Kafka, "Aforismos"


terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Street Spirit

Vou numa rua de pó e em cima dum telhado noto os olhos dum gato. O gato parece-me preto mas é de noite e, escondido atrás de arvorés que se agigantam sobre telhados, não o distingo bem. Sinto o pó levantar-se a cada passo, os passos tornam-se lentos e as sapatilhas aspiram o pó, como uma folha que se vira sem a ler por me ocupar apenas dos olhos do gato; não oiço nem vejo mais ninguém. As patas movem-se sem eu as notar, rápidas enfiam-se umas nas outras; vai de perfil, olhando para mim, a saltar de telhado a telhado. As casas estão coladas umas às outras, sem espaço para outras ruas, o mesmo acontece do meu lado, continuo em frente.  No horizonte o fim não aparece, ou pelo menos não aceito como o final duma rua enorme onde os dois lados se juntam, as duas filas coladas. Acabar em "V" só pode ser ilusão de óptica.


segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

One move



...that may left me, is problaby just waiting that I move, by myself. Easy, no excuses.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Anfiteatro

Aluguei o Louvre para quadros que imagino. Os anteriores saíram, deixaram apenas as molduras, pedido meu para de noite perder-me por salas com elas ao ombro.
Nessas horas, o pé direito fica coxo, gasta-se tal como a madeira raspada no chão, fico com o som de pernas marteladas nos ouvidos, a cada novo passo. A falta de luz abre caminhos em direcção a portas fechadas, a cadeiras que tombam, candeeiros que perdem vida depois de o vidro beijar o chão, mil estilhaços.
Nas paredes noto quadros antigos. Rectângulos em tons mais claros, aos quais tento recordar traços, juntar cores, formar imagens; bater a uma porta que deu abrigo e não dei atenção merecida. Restos de tinta pelo chão, folhas de cerejeira com os efeitos do vento. Nas paredes soletram-se infiltrações, rachas conjugam verbos no pretérito.
Dou um passo atrás. Tiro uma moldura, deixando as outras em sonhos contra a parede, onde não as posso ver dado a parede desaparecer nesse instante. Do corredor resta uma carpete vermelha que pode ter 5 metros ou 5 quilómetros, não reparo, reparo apenas na parede que se resume a um pequeno pedaço, há poeira em cima dos tijolos agora a descoberto. Estendo os braços, entregando a moldura ao rectângulo em que encaixa. Uma brisa instala-se; o cabelo voa, há tijolos que vão caíndo da parede, pó para dentro do rectângulo. Os meus olhos tentam então subir degraus, ganhando força; o pescoço reticente, os olhos sem acreditar. No lugar da tela olhos, movimentos, correrias, puxões, passos lentos, uma enormidade em cores e formas abstractas. Foco o olhar à procura. Algo. O vento, apesar de manter a mesma intensidade, agora torna-se capaz de me mover, as pernas abanam, ainda com o olhar focado, fazendo-me cair para trás, até ao limite do corredor, onde há fronteira com o vazio.
Tenho atrás de mim as molduras, e as suas marcas nas costas. A moldura da parede arranca-se, esperando até outra noite, dando lugar a outras que nos minutos seguintes encontraram outros pedaços de parede, até que eu caía novamente e recomece, não só para relembrar, não só pela sua arte, não só pela sua beleza - um coração cheio sentado na poltrona a rever o seu filme favorito - mas muito para procurar qualquer coisa em imagens, e tentar perceber o porquê de cair quando o vento se apodera do meu equilíbrio; olhos baixos, mãos nos bolsos enquanto pontapés a latas, respirar complicado, vontade de correr a todo o gás, sem saber onde; um alicate a apertar cada vez mais uns arames ferrugentos. Volto a tropeçar em molduras.

Gnomos uns em cima dos outros depois duma queda em avalanche, baterem no chão implorando aos de cima que se despachem, com os pés em cima de corpos em turbulência, cairam de novo. Setas que dum lado ao outro rasaram os olhos, e por vezes nem a deixar-me atingir me dignei. Agora, em cima duma montanha desgastada, só rochas castanhas, secas, sentado com o vento nos ouvidos, os olhos à procura de imagens que já não passam, os lábios imóveis pelo frio. Uma mão a puxar os cabelos, a outra estudando o relevo da barba. Pequenas lágrimas em gelo, capazes de rebolar toda a montanha pelo Sol.


O significado de expressividade


sábado, 12 de dezembro de 2009

Caleidoscópio

Perdi-me num tubo onde imagens mudam de posição em função do olhar. O meu corpo inclinadinho numa cadeira nem sonha que o deixei, a mão esquerda quase que roça o chão, os olhos deixaram escapar qualquer coisa que foi aspirada para um tubo e de seguida fecharam-se, uma mosca ronda-lhe os ouvidos mas não acorda. A partir duma pessoa que foco ao fundo, as imagens vão-se movendo em espiral, aumentando cada vez mais os braços, passando enormes por mim, de todos os lados. O jogo de cores tem-me feito perder, como correr de olhos fixos em direcção o SolPasso então às mais variadas reacções, desde sentar-me com a mão no queixo, olhando de vez em quando para ver se a apanho de surpresa e encontrar por lá qualquer coisa deixada por engano, ou até correr pelo tubo fora, de olhos no foco, indo de frente contra a confusão de cores e luzes, sem me lembrar sequer que respirar pode ser essencial, e, por pena minha, deixando algumas imagens para trás, dado só notá-las depois, quando a distância teima em manter-se. Dou um grande suspiro, tento respirar e por vezes a tosse surge, as imagens parecem passar mais depressa, envolvendo-me. Os olhares que lanço ao foco não parecem encontrar ninguém. Levo a mão à cabeça, baixo-me, e sinto algo a tentar escapar em forma de água.

As imagens vão passando e a qualquer uma dá vontade de agarrar e poder ver tudo o que têm dentro. Ao jeito duma mão que se molha num rio, baixar-me devagar para sentir a corrente, tentar pegar numa gota e vê-la de todos os ângulos, aproveitando o Sol para formar um arco-íris, um pequeno diamante, enquanto o resto da mão está molhada, a gelar-se devido ao vento, sem que com isso me importe, pois com a outra mão já vou passando ao de leve, com um dedo. Mas com isso as restantes perdem-se, deixo de as ver, mesmo às que tentam reagir a essa paragem. Pode mesmo haver o risco de o tubo escurecer aos poucos, e do foco já nenhuma imagem ver, mesmo que insista, mentalmente, recordá-las e tentar visualizar as cores.

Gostaria de chegar ao foco sem perder uma única imagem nem me deixar confundir com as cores, e aí seguir, já fora do caleidoscópio.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

For the first time I figured out

Escrever para mim deve servir para me vencer a mim próprio, para ganhar à escrita, pois tenho mesmo de ganhar quando se trata de algo importante e fundo em mim, do género "anda cá rapaz, apresenta aqui estas contas, anda cá não fujas, para que foi isto, ah? Diz-me, que andas tu a fazer?" Vencido esse desafio, depois de tratado com todos os cuidados necessários - já que ser assim apanhado de surpresa não é fácil, imaginem um peixe pequeno sozinho no mar, atira-se um fiozito ao calhas para lá e calha logo em acertar-lhe - desbloqueio essa parte, e mesmo que apareça logo outra emoção nesse local, se agir depressa não terei nem tempo para a ver de longe, com a atenção necessária, e tenho a certeza que a partir daí dividi-se em parcelas menores, formando dentro de mim múltiplas partes, de diferentes tons e para diferentes propósitos, esperando que com isso não esqueçam como começaram. Sei que pode parecer estranho, mas devo funcionar um pouco assim, talvez também por isso nem sei se escrever é aquilo que faço, ou se já alguma vez me consegui vergar a 100% aqui, mantendo ao mesmo tempo uma certa poesia, instrumento fundamental para mim, guia-me mesmo.

I am winning at the half-time, I hope to continue with the rythim because I`m feeling fresh. I will keep you in touch.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

A solução é:

não pensar! Ou pelo menos tanto, esquecer a maior parte das possibilidades, principalmente as que dizem respeito ao que me pode acontecer - completamente inúteis estas aqui -, e tentar atenuar as que podem causar embaraço ou raiva nela.


O que eu merecia era ser cortado às postas e enviado num pacotinho para a Sibéria.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Desculpas... e não só.

Olhares que se cruzarem sem necessitarem duma palavra anterior, um sorriso, e assim continuaram, tantas e tantas vezes, sem essas palavras de parte a parte; acasos? Segundos onde o mundo se mostrava, por vezes, quem sabe (ao certo só duas pessoas), minutos sem cessar. Uma viagem no tempo, alguém ao nosso lado pergunta "se estamos a dormir", nos "o quê?", "a caneta que me emprestaste, toma" como resposta, "ah, a caneta, obrigado". Nenhuma certeza (nenhuma certeza?, que cobardia, que inexperiência, nesses momentos frases que se repetem cabeça "não é possível, não é possível"), para piorar um vulcão que acordou devido a um sismo com epicentro noutro lado, hesitações, réplicas que o meu sismógrafo não conseguia descortinar a origem mesmo não se esquecendo nunca de marcar a intensidade, escalas rebentadas, novos máximos; uma desculpa que tomei... Rios de lava que se alimentam de palavras. Os olhos iam e vinham e o meu peito para a frente, com o ar a querer sair, um som a querer sair mas que voltava para trás, engolida, uma onomatopeia que se dignasse. Pessoas pelo corredor mas nenhuma outra com olhos, pessoas contigo mas nenhuma outra com olhos. E eu um megafone sem fim, um ser onde o cérebro não tem influências, um tubo que começa junto a regiões do pulmão, junto ao lado esquerdo - de referir ainda a influência duma auto-estrada que vêm por aí acima até essas bandas e que tem tendência a bloquear - parco em palavras, em expressões. Agora a dor visível nesses olhos, eu tomado como fantasma, um susto, e a dor sentida em mim por essa outra que foi causada; o último olhar atestou isso mesmo, e pela primeira vez uma consciência convicta do que causei, e do que já perdi. A certeza toma o lugar do risco, e as hipóteses desaparecem... Um deserto habitado interminavelmente por tempestades de areia, um rosto que ficou à sua mercê; no fundo o que semeou. Segunda terei uma carta na manga (não falo apenas metaforicamente), palavras que correntemente nunca sairiam, não com a mesma lógica e verdade, com uma caneta que se baseou nas emoções que vinham naturalmente; embora com poucas esperanças que o prazo de envio ainda possa ser respeitado, meter requerimentos, fazer exposições, últimas instâncias... Vergonha, do que fiz.

Na cabeça a beleza desses olhos, e o quanto têm. Olhos com alfabetos dentros, diversas línguas, dialectos. Apenas um som pedido.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

...à procura duma realidade poética

Tenho andado a encaixotar as ideias de mansinho, tento ao de leve pegar nelas, quando estão distraídas, e sem fazer muito barulho - convém mesmo nem pensar muito quando estamos a fazer tal acção - fecho-as na caixa e levo-as para o sótão, onde as deixo a encher de pó. Pode acontecer que com o tempo a caixa comece a ficar mais frágil, a humidade pode começar a desfazer o cartão, e o papelinho que deixei nela a indicar-me qual ideia era para um possível utilização no futuro, ao jeito daquelas prateleiras que os farmacêuticos usam quando vão lá atrás, ficou com o carvão do lápis que usei todo dissolvido. Aí, cria-se um buraquinho momentâneo e puff, vem a caixa por aí abaixo, desarrumando tudo por onde passa e, na maior parte das vezes, deixando a ideia à solta. O tecto, agora mais frágil, vai-se enchendo de pequenos buraquinhos, e aí tenho de voltar ao mesmo. Tenho ainda usado uma vassoura para tratar do passado, mas como tem sido tudo ao mesmo tempo é preciso ter cuidado para não ser as minhas mãos a esconderem as ideias, e ao assustá-las, deixá-las naquelas cantinhos mesmo difíceis de chegar, onde muitas vezes temos de pedir a alguém mais alto para chegar. Conseguidas as arrumações, torna-se mais fácil respirar, e então a mim que tanto o pó incomoda, faz-me respirar e dá-me uma sensação de "seco".

"Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo."
Clarice Lispector

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Gus Van Sant teached me Poetry



Não consigo descrever o que sinto ao ver este vídeo, uma cena tão simples e bela. Gostava de conseguir o mesmo.

Este também não é mau:


A minha forma de escrever vem do cinema.

sábado, 28 de novembro de 2009

Mais um minuto...

Está sentado numa sala, com uma chave no bolso mais pequeno.Pingos escapam pelo tecto, a madeira range quando alguém passa, os passos são tão lentos que parecem parar para tentar ouvi-lo. Além das paredes há apenas uma janela com os vidros partidos, quando acordou e se viu fechado naquele quarto foi até à janela onde gritou e gritou, ninguém respondeu. Um megafone estragado, uma girafa sem cordas vocais, falta de ar nos pulmões. Deparou-se com um espaço enorme, um enorme buraco entre a sua janela e a seguinte, mesmo estando as duas divisões ligadas pelo tecto, o corredor timha desaparecido. Rouco, deu um passo matrás, e de seguida um murro na janela, espalhando não só vidros como lascas pelo chão e pelo váuco abaixo, folhas de Outono, penas ao vento, uma moeda a tilintar entre círculos. Com a mão em sangue, lascas e vidros, sentou-se. Cabeça baixa, com a cabeça num espaço entre as pernas flectidas, cotovelos nos joelhos, pingos no nariz, passos e respirações no ouvido, murmúrios, pequenas poças, uma carpete húmida. A sala parece-lhe ir diminuindo em àrea, e por vezes sobe as costas para se ajeitar. Ossos a ganhar posição, raízes que vão virando a cara um lado ao outro, terra para trás. O sangue já coagulou, e na sua cebça tem a imagem de cada traço da parede, indo de vez em quando tomando nota do quanto as parede diminuíem; tem a intenção de sair. Um hamster a rodar, um cuco que já não sai do relógio, uma torneira a pingar, uma folha de papel rasgada em duas, metade para cada lado, ao sabor das mãos. A chave não diminuíe, e está seguro de ela abrir uma qualquer porta naquela parede. Não sabe se, para a chave coincidir com trinco, ja deixou escapar o momento, se está a passá-lo, ou se ainda tem de esperar. Mas na parede ainda não viu nenhum, nem tem ideia do que esperar depois, se outras salas, se outros pingos, se outros passos, se... Um ramo que se junta, corridas, sorrisos que se ouvem e chegam ao inconsciente. Caso não encontre a fechadura a tempo, terá de saltar pela janela ou acaba esmagado, ficando minutos com as pernas ao lado das mãos, o nariz a aspirar a humidade do tecto. Pode ainda encontrar o espaço mas, no exacto momento em que a tenta virar, ela ficar encravada e ser impossível abrir a porta, ficando depois a vê-la quebrar-se. Folhas de Outono, penas ao vento, uma moeda a tilintar entre círculos. Um aquario sem água, uma montanha de areia, um icebergue que se aguenta do Polo Norte ao Sul.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Going lost...

Algo está a perder-se, como se aos poucos fosse perdendo a visão, deixando de ver as folhas nos passeios, os gatos nos tectos, os ajustes de vestido, a poesia. Parece que já não consigo escrever, que me escapam os pormenores, já não tenho a habilidade de os puxar com os dedos e realidade me escapasse, fugindo para o horrível cerébro. Sinto-me crescido, capaz, já sem uma característica diferente, capaz de transmitir sonhos, já sem algo puro. Incapaz de algo primitivo, uma reacção totalmente impulsiva, sem nada dentro, moldado e dependente demais, sem imaginação, cartas marcadas, dados gastos, cigarros fumados, merda!

Getting too Keaton and lefting Chaplin behind.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Alma perfeita

Uma imagem transparente de onde o arco-íris brote, pózinhos brilhantes varridos da palma da mão depois dum sopro, carruagens antigas que principiam caminho, formando uma nuvem para a qual não há gravidade. Distraídos, pensamos ser capaz de agarrar os pózinhos um a um, talvez para um saco e levar para casa onde em dias de chuva passamos tardes a olhar para eles, com o queixo a encontrar descanso na mão. Vai-se devagarinho, uma pinça, mas pela deslocação do ar a carruagem escapa por outras linhas; vemos um fumozito do pouca-terra a ficar para trás. Depois do fumo dos olhos, levantamos a cara novamente na direcção daquela película, como a uma porta onde se bate à procura de doces. Se algum calha em cair, não sabemos o que fazer. Gasta-se a sola dum lado ao outro, sempre na mesma linha. Enquanto andamos, vamos de cara baixa e julgamos a nossa mão capaz de transpor tal superfície, no final da linha ganha-se um impulso e uma palavra tende a sair, não saí. Anda para trás, com sorte deixou um toque. Polegar, indicador, médio, anelar, mindinho. 2,3,4,5 dedos, combinações entre eles possíveis. Raro chegar à palma. Complicado haver espaço para juntar igualmente a segunda mão. Tudo isto com o cuidado de não afugentar os pózinhos e deixar a carruagem seguir os trâmites normais.
Uma menbrana que faz lembrar um vidro, com a diferença de apenas o vidro ser visível. Um ser. Do outro lado podemos imaginar o que há por sons que aqui e ali escapam, contactos mais acelerados, alterações de forma momentâneas. Mas as paisagens oníricas estão além disso, embora lá dentro.
Diamante por lapidar, o único caído de uma mina escondida bem no coração das florestas mais primitivas de Àfrica, onde a Natureza ainda impera e os povos seguem os seus rituais. Impossível fechá-lo numa mão ou tentar moldá-lo dado o seu tamanho, forma e brilho.
Um nome por inventar.

[Não deixes nunca de acreditar em ti. Nunca antes me deparei com tal força, igual à de um diamante.]

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Entrar na realidade... para representar a ficção.

(Without a pen capable of writting, maybe dry)

domingo, 22 de novembro de 2009

[The Dreamers] Hey Joe

Uma das minhas músicas favoritas, Hey Joe de Jimi Hendrix, com cenas daquele que é talvez o meu filme favorito - não me consigo definir no que se refere a filmes -, Dreamers de Bernardo Bertolluci. Não resisti a partilhar.

sábado, 21 de novembro de 2009

Recovery

Escadas onde no início procurava vestígios, uma erva que se enrolasse degrau acima, retratos pelas paredes, música ambiente, ao invês ampulhetas estragadas pelo caminho, o último grão caí e a ampulheta gira. Antes dos primeiros passos, somente um foco sobre uma cabeça e umas pernas dobradas, as mãos em primeiros contactos com os joelhos, fora dessa luz nem o vão de escada à distância de 5 dedos se notava. Suspirou o suficiente e tentou seguir viagem, aos primeiros apalpões deu com um degrau, depois o seguinte, e começou de gatas. Com o foco para trás, e sem conhecer por onde ia, calhava em desequilibrar-se e caía. Ficava minutos estendido até se recompor, novamente com o foco em cima, a funcionar como um dedo que tenta agitar um corpo inamovível, voltava a espernear e procurava novamente o ínico das escadas. Ia decorando os passos, o cheiro dos degraus, reconhecia nos seus ouvidos o barulho da areia a escorrer, e à medida de tanto bater com a cabeça no chão, lá acabou por avançar os primeiros 5 degraus e chegar àquela parte onde o corrimão começa, e apesar do resultado que sentia dentro de si derivante das quedas - a última foi mesmo das piores -, pôs-se de pé. Alisou primeiro a mão direita, depois com a esquerda recuperou o tacto da aspareza da madeira, quando velha. Virou costas para um olhar sobre o foco, à saída das escadas, como que pensando ser essa a última vez que o veria, respirou fundo e começou a subir, numa escada que se enrola pelo céu. As ampulhetas vão ganhando sentido, no corrimão recorda toques, a ideia de subir fá-lo recordar sonhos antigos. Por vezes pernas fraquejam, mãos percorrem testas, sentimentos invadem o raciocínio, mas hoje sentiu com mais certeza o toque duma mão estendida, talvez por vir relembrando o toque natural de algo concreto como o corrimão, talvez pelo ar que a este nível parece mais fresco, talvez mesmo pelo que este toque significa só por si, vindo directamente da base, e que lhe fez, num só passo, avançar 100. Quase que aposta já ver a porta, e sente-se seguro para o confronto com a maçaneta, sem ter de recorrer ao arrombamento. Se o vento ajudar, e mesmo com a madeira a ranger a cada movimento - logo ele que apesar de magro até têm pés grandes -, acredita agora ser capaz de lá chegar, pedindo apenas a continuação das palavras que recebe. A fonte mais alta deste rio.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Carta do sistema respiratório

Gostava de inspirar ar suficiente que me fizesse duma vez por todas chorar a sério, enquanto isso não passo dum pingo de quando em quando, mais pelo esforço que outra coisa, pelos empurros que tenho sentido contra a pele, influências da dilatação que o fogo causa. Julgo ter um nariz traidor, um sacana como apêndice, ou então os pulmões incapazes de maior capacidade, chegando-se mesmo para lá da pele, por vezes meto-lhe a mão em cima em auxílio, isto talvez por obra dum qualquer tubinho estragado nas imediações. Apenas de manhã, quando os sentidos estão menos despertos, o meu raciocínio traz o correio. Tenho uma carta do sistema respiratório numa letra ofegante, mas muita bem escrita, em que me pedem desculpas mas só estão a fazer o que o meu cérebro inconscientemente manda, ao que parece, sou um ingénuo que pelos dias de Dezembro manda cartas ao Pai Natal e, acima de tudo, neste momento, deseja não se fechar, custe o que custar. Pedem desculpa por não poderem retirar a carrinha dos dilúvios que me anda a empaturrar o trânsito, mas tratou-se dum acidente muito grande e é preciso ter cuidado a tirar os feridos, houve ainda um camião cheio de gás que passava por lá nesse preciso momento e acabou por explodir, deitando alguns edifícios abaixos, houve projécteis a bater nas nuvens e outros a chegar ao mar. Têm depois de limpar as ruas e ao que soubrou fazer um inventário como prova futura, estas coisas pedem organização e não podiam deixar que um sopro varresse tudo de seguida, fazendo ranhuras ao que lhe aparecesse pela frente.
Numa nota final, deixaram-me a pequena história duma caixa vazia que um dia foi até à praia, o vento era muito e a tampa arrancou-se, os grãozinhos de areia, sendentos dum espaço novo, foram logo a correr, contentes, formando fios e fios que depois se elevaram em muitos cumes pela caixa, ao que parece uma cadeia montanhosa com os picos a dizer olá aos céus. A caixa ficou por lá ainda uns tempos, mas depois viu que tinha de voltar a casa, só que agora, com todo o peso que levava, não tinha pernas para isso. Revirou-se e revirou-se e lá foi-de despejando. Está agora no caminho de volta para um banho onde, se possível, tire todo o pó e as pedrinhas que se agarram a tudo naqueles cantinhos a que mais ninguém consegue chegar. Agora não têm assim tanta vontade de ouvir as ondas de novo, mas os autores da carta garantem-me que assim que estiver bom tempo de novo, não vai resistir a voltar, e como é um pouco descuidado, pode mesmo voltar a esquecer-se dos cuidados que a tampa lhe pede, e deixar entrar os grãozitos outra vez, caso se livre do pó e das pedritas que agoram o sujam. No final da carta pedem-me desculpa pelos incómodos causados, tentarão ser o mais breves possíveis, dizem estar pura e simplesmente a tratar do bem geral. Eu, claro, acreditei neles e tenho de me aguentar com o barulho que fazem com as máquinas.

Em Post Scriptum, disseram ainda que me deixavam uma boa fotografia das areias que causaram isto tudo, eu agradeci está claro, mas disse-lhes que o cérebro pode estar descansado que os sentidos adormecidos guardaram uma imagem ainda melhor, um quadro surrealista da autoria deles próprios, enquanto sonhavam e batiam as asas pelas nuvens. O valor estéctico desse quadro será sempre bem mais que positivo, mas o que encanta é a sua profundidada que faz notar, sem explicações racionalistas.

Gostava de dormir para sempre, de alguém chamar-me e nem aperceber-me, de ficar sentado com os pés cruzados e rir-me até dum papel aos trambalhões só porque é um papel aos tranmbolhões, gostava de não pensar, livrava-me de todas as espirais e até a dor tinha um certo gosto, ou então pensar ainda melhor que Nietzche e Dostoievski juntos, gostava de descer uma rua e com os nós duma mão bater a todas as portas sem sequer ter de olhar para trás depois, gostava de me atirar com toda a força a um banco de pedra perto de rio e ver o pôr-de-sol como se mais ninguém passasse por ali, outras vezes gostava de estar lá sem estar, gostava que me dessem um toque no ombro de surpresa para eu saltar logo de seguida entre braçadas rápidas sem sentido, ao jeito dum pato a voar que ja prepara a aterragem, com um riso perdido nos meus lábios e sempre de olhar certo, gostava de esquecer todas as palavras e ouvir sempre tudo de novo, horas a ligar e a desligar um rádio, aumentar e tirar o volume, gostava de ser como uma borboleta quando deixa a crisálida, a abraçar a direcção que lhe deram, gostava de não ter de respirar, de não ser obrigado a cumprir funções, apetecia-me agora ser velho para sempre, gostava de entrar fundo dentro de mim, onde uma criança martela um carrito contra o chão de madeira apenas para ver as rodas parar e rolar no ar logo de seguida, quando se lhe abre a porta vêmo-lo de costas, mas imediatamente se vira e olha-nos com um sorriso. Ainda com o carrito escondido atrás das costas, a torcer a língua com medo que o vejam e o roubem.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Culturas

É o tentar olhar para este momento como se duma flor estranha se tratasse, encontrada dum dia para o outro no canteiro, e cujas raízes, que me trm feito suplicar água e sais minerais como até então nenhuma outra tinha feito. Pensar que essas raízes que se alastram no solo apareceram aqui talvez pelo vento, ou obra dum pássaro, depois de engasgar e deixar a semente cair, talvez mesmo uma abelha. E, se deixar o canteiro a descoberto, quem sabe, talvez outra possa aparecer.
Mas depois, quando salto da minha caixa e vou ao jardim apanhar ar, lá está olho a flor, como que maior que todo o resto, a única vista em redor. Examino-a de diversos ângulos, as minhas pernas para cá e para lá, jogos de impaciência na minha cabeça, vou buscar uma cadeira perdida não sei onde e assim que me sento volto a levantar-me, levo o indicador aos lábios, intermitente, a mesma rota sempre para lá e para cá, num momento acabo por tropeçar na cadeira e já que a tenho de levantar, sento-me de seguida, olho novamente e desisto, tenho os olhos tapados pelas mãos e pelo cabelo, ora fechados ora fixos no chão, levanto-me outra vez a olhar para a flor, ela que só me pede contemplação, bons cuidados, dobro os joelhos e deixo a mão no queixo, o relógio para, se calho em suspirar há um furo que é descoberto nos meus olhos, os dedos funcionam como tampa e o furo não solta mais o repuxo, volto a entregar a mão à face, os olhos à flor, piscando muitas vezes e trocando posições, a cara move-se constantemente em tiques que não conhecia. Caso um comboio atrás de mim, nem um cabelo movia.
È uma flor enorme e extremamente bela que cresceu sozinha, mas agora, sem formas de crescer, acabará por murchar. Ainda que tal aconteça, nunca a arrancarei daqui, deixarei o seu caule e pétalas ao encontro da natureza, e só ela - talvez ventos, dilúvios, incêndios... - a poderá arrancar. Talvez tente um perfume com as últimas pétalas verdes que poder apanhar, as últimas que ainda se encontrarem verdes. As raízes ficarão pelo solo na rede que construíram, um espaço que tentarei guardar.
A profissão de jardineiro orgulhoso não é capaz de me cativar, mas canteiros sem cor não funcionam. Não sei se pelo vento, não sei pelo bico dum pássaro ou até junto aos poléns dum abelhas, talvez plantação premeditada, com primeiro a escolha da flor, o local, as ferramentas a utilizar, mas espero ter sempre a lucidez necessária para nesse canteiro onde, ainda que murcha, esse ser de memórias passadas ter apenas como companheiras seres dignas de tal.

O canteiro anda com ervas daninhas a saltar o muro e folhas secas a cair duma árvore cinzenta enorme, pena só quando já não o reconheço ou me avisam é que o começo a limpar. Assim que se tira o peso, volta ao normal. Assim que a primeira folha sai, os olhos baixam-se. Consciência de culpa, um barco a afundar-se por o marinheiro ter feito um buraco ao assustar-se com as ondas. Mas depois sabe tão bem ouvir o vento de mansinho, uma voz a ocupar-se da orelha a ordenar até o local de despejo dos detritos, a brisa com cuidados, um assobio no lóbulo.
Por medo de perda de identidade, nunca desenvolvi em excesso o pensamento. Foram os meus impulsos em mó de baixo que me traíram novamente, um novo buraco negro a pedir-te mão. Desculpa.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

(falta de inspiração, assuntos e imagens repetidas)

Um pássaro entre 4 tábuas. As tábuas raspam por um muro abaixo onde pedritas lhes deixam lembrança. Uma carroça numa estrada com buracos, um burro de olhos vendados, um hamster à roda, papel amarrotado para encestar, uma unha no quadro, pó de giz. De quando em quando as asas acabam por espevitar-se do seu banco confortável e lançam um toque à janela do lado. Folhas aos montes agora secas, paisagens de tardes passadas, primeiros voos, restos de ninhos pelo chão em palhas que o vento procura. Suspira. Dá dois toques ao de leve, sem sentido, na janela. Nem para "toc-toc" dá. - A caneta caíria caso a usasse agora, haveria um olhar vago sobre a folha riscada, a consciência de livros por abrir, sítios e pessoas para conhecer. Porquês. Depois dum olhar para o ecrã, um salto para cima da cama. - Uma pedra maior pôs-se à frente e um galo na cabeça, penas pelo chão, asas encolhidas. Elas que voltam para trás e agora funcionam como casaco, o bico procura direcções junto aos pés, o banco torna-se enorme, o chão mais vasto, às tábuas acrescentam centímetros, por oposição ao vidro, cada vez menor. Em outras nuvens sabe da existência de quem o faria romper as tábuas apenas com a força das suas asas.

domingo, 15 de novembro de 2009

Who I am 2#



Amantes Regulares, de Philippe Garrel. Com Clotilde Hesme e Louis Garrel, que aqui interpreta a personagem de François.

Maio de 68, poeta, Lilie.

Louis Garrel, um dos meus actores favoritos, de quem convêm ainda referir ser um dos protagonistas daquele que é para mim o melhor filme da década, Dreamers. Nesse trabalho, ao lado de outro dos meus favoritos, Michael Pitt - Descobrir Forrester, Last Days, ... -, e da minha actriz favorita, Eva Green - Reino dos Céus, 007 - Casino Royale, ... -.  Dreamers, realizado por Bernardo Bertolucci, autor do mítico O Ùltimo Tango em Paris.

(Mesmo de mim, naquela parte do vídeo dos 1:00 aos 1:03.)



sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Espiral

Um teclado a oferecer resistência, os dedos voam e tiros por baixo, andorinha ao chão, um vale onde um rio diminuí, mais e maiores cascalhos à pedir ao céu uma corrente mais forte, nuvens brancas espaçadas por quilómetros, numa um sonho a aparecer de mão estendida, escadas brancas a um passo com um limite a perder de vista, noutra os olhos ao nível médio, uma árvore seca de savana, outra final que se deixou no reflexo duma poça, uma pedra em cima e ondas, uma cara que apenas o espelho conhece aos èsses, devido às curvas a miragem dum sorriso, palhaço pobre, fitas pelo chão no dia seguinte ao Carnaval, roxas, uma roda sem dentes, um novelo a resignar-se à brincadeira dum gato, no sofá o dono que com o comando na mão vai contando canais, uma antena que decerto mal sintonizada, a televisão aos riscos, chuva, olhos no chão à procura de abrigo a passo de corrida, em toda a rua ninguém, nenhum carro na berma, nenhuma janela corrida, lembrança dum livro de Kafka no que outrora foi um poster, outra poça que a esta velocidade mal me passa, um ténis por cima, atacadores ao lado de andorinhas, um atacador molha-se na poça e novas ondas, se se tentar um olho para trás nem a recordação do dito poster traz um raio de sol, um arco-íris, uma luz forte nos olhos, um gato em confronto com o novelo, palhaço rico com jeito para balões. Um dedo no botão da televisão e cama, amanhã (já hoje por uma hora e seis minutos), outro dia.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Espelho do espelho, parede ao lado

Um espelho com outro espelho dentro. Olho o espelho, está à minha esquerda. Pica as nuvens com um pequeno enfeite seu, e foi colocado numa posição mais acima, guardando assim o reflexo do outro apenas no seu fundo. Dada a altura, outro lugar seria impossível.
Eu, de pernas dobradas no canto duma sala, vou focando cada vez mais, tornando-se maior. Em confronto à base, encontram-se desenhos que pertencem ao tecto desta sala, enfeitando o tecto com figuras oníricas, cheias de cores vivas. A sua superfície encontra-se capaz de fazer deslizar uma pena.
Por vezes reparo no outro espelho, que ocupa de alto a baixo a parede contrária, esta mais baixa para efeitos arquitectónicos. No tecto, nota-se a inclinação, a pender para este último espelho. A parede deste lado têm vindo a baixar e no espelho nota-se uma racha aqui e ali, mais visíveis no fundo do outro espelho. Um carrinho neste telhado e saltava que era um instante. 20º andar.
Num dos cantos, deito a cabeça e adormeço. O espelho do lado esquerdo envidrou-se no meu olhar.

Dentro dum espelho outro espelho, que reflecte o primeiro, que reflecte o segundo, que reflecte o primeiro, que reflecte o segundo, que reflecte o primeiro, que reflecte o segundo... um túnel a alongar-se.
better, better...



I hope that better not, yet

domingo, 8 de novembro de 2009

doí-me a Tua Dor

(noite complicada, pensamentos à pista de formúla 1, bomba fora de sítio, amanhã estarei melhor, amanhã... E tu?)

sábado, 7 de novembro de 2009

Where did all the love go?



O vídeo está todo ele muito bom, cheio de pequenas situações nas mais variadas prespectivas mas, para mim, a imagem que se destaca claramente é a daquele corpo de mulher cheio de nomes a tinta preta, alguns deles borratados.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

"Olhos nos olhos"

Uma bola aos saltos. A bola, saí da mão tentando não forçar, por um ligeiro abrir de dedos. Há uma sala branca, sem paredes, cheia azulejos brancos pelo chão, onde os quadrados formam figuras quando a visão foge pelo horizonte. Há a sensação de enormidade, mas também de ambiente fechado, onde o nariz procura uma brisa para cheirar e se ela calha vir duvida-se da força. A bola precisa dum tornado para acelarar a rota, no seu jogo de subidas e descidas. A gravidade não entra, nem influências de corpos estranhos como Vènus ou outros planetas; a bola tem o peso duma pena e como que flutua.
Neste plano, apenas a Lua cabe. A Lua de duração intermitente. Aos poucos, a bola vai chegando tão alto que pode ficar dias sem dar sinal, inacessível aos ventos mesmo tempo na sua forma pequenas marcas dele. Um dia a bola acaba por saltar a atmosfera, espera-se com a força e direcção suficiente para alcançar a Lua, mesmo que sem o vento a empurrar.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

A educação duma lata

Está à sua frente uma lata, a baloiçar no tampo duma mesa redonda. À lata já não pertence aquele papel que se enrola à sua volta e a torna colorida, igual a outras da mesma série e diferente das restantes. Esta acabou por ser edição única, defeito de fabrico, serviu para se guardarem cartas antigas por lá. Alguém agarrou-as todas duma vez e meteu-lhes um elástico, duas dobras para apertar melhor.
As cartas, com o tempo, foram preenchendo o espaço entre si. O pó meteu-se onde o ar usava correr, e as cartas coloram-se umas às outras. Unidas, o maço passo a ser visto como um todo, em que a mais variada linha, anteriormente escrita numa letra cuidada, se torna imperceptível. A tinta começa a misturar-se nas folhas à volta, perdendo-a onde originalmente foi escrita para emigrar em zonas já abaladas por outras tintas, criando frases sobre frases.
Caso a alguém lembre a remoção do elástico, demorará até a marca do elástico desaparecer, serão necessárias unhas pacientes para, pelo menos, não rasgar, e esperar que as cartas percam o aspecto corcunda de tanto tempo enroladas; além da maior dificuldade que será lê-las agora.
Apertadas naquele elástico, presas numa lata cinzenta, dum alumínio moldável, e apenas com visão para o interior da lata, as cartas acabam esquecidas do mundo, com as suas palavras a entrar em decomposição. Se às cartas forem atribuídas a eternidade longe da tal mão capaz de as soltar, ao menos, se possível, lhes atenuem a pena, dando às letras e pontos, tinta permanente; como quando usada por uma caneta nova.
Alguém volta costas e, puxada pela deslocação, a lata deixa de abanar, rodando agora pelo chão. As cartas, a querer saltar da lata e com elástico a perder força, vão-se rasgando à medida que raspam com outros objectos, mudando também a direcção. Por fim, bate contra uma parede, dá uma pirueta atrás, e para. Todos os móveis da sala foram mudados, a tinta da parede trocada.

domingo, 1 de novembro de 2009

Knocking on Heaven`s Door*



Mama, take this badge from me
I can't use it anymore
It's getting dark too dark to see
Feels like I'm knockin' on heaven's door

knock-knock-knockin' on heaven's door
knock-knock-knockin' on heaven's door
knock-knock-knockin' on heaven's door
knock-knock-knockin' on heaven's door

Mama, put my guns in the ground
I can't shoot them anymore
That cold black cloud is coming down
Feels like I'm knockin' on heaven's door

knock-knock-knockin' on heaven's door
knock-knock-knockin' on heaven's door
knock-knock-knockin' on heaven's door
knock-knock-knockin' on heaven's door

*Música original de Bob Dylan

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

O que gosto mais em Lisboa... é do eléctrico.

Gosto da confusão que se faz nos Prazeres para entrar, com os turistas todos a cumprirem roteiros (e já agora, para ser sincero, falo em especial das estrangeiras, loiras, olhos azuis, olhos verdes, brancas como a neve, outras línguas, nenhuma queixa das portuguesas, longe disso, também gosto muito de as ver por lá, mas sabe bem variar as vistas de vez em quando), das velhas a queixarem-se dos estrangeiros - "passam o dia nisto, a estorvar de cá para lá, mas porque não param eles? há tantas coisas para ver" - e sempre de olho desconfiado a ver quem lhe quer gamar o saco, do pequeno barulho, quase imperceptível, que fazem os carris, da manivela e dos pedais do - ou da - guarda-freio, do jeito quase desengoçado de andar, a fazer-me lembrar as pistas de carros eléctricos que juntava peça a peça em miúdo, do facto de ser de madeira, do parecer que "é agora que isto vai abaixo", das cores, dos bancos, das janelas, e da sua ausência para podermos cheirar as ruas, gosto ainda mais quando vai à "pinha", em pé, procurando possibilidades em todo o lado, outros ângulos, olhares cruzados, dos putos que se empoleiram na parte de fora e fazem revés com os espelhos dos carros estacionados, em competição pelo título de mais "maluco", e das velhas a ralharem com eles enquanto eu me rio, pelas casas antigas que vou passando, em especial antes do Chiado, numa pequena subida, quando há pequenas ruas a surgirem do lado direito como se fossem ramos, e descem por aí abaixo até ao mar, com fios a encher o céu. Depois é sair no Chiado - descansem que não acaba aqui -, e que só por si já vale a pena, fazer o que há a fazer, e voltar a esperar pelo próximo eléctrico.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Um

Sentado. As pernas arrancam lascas dum muro de mármore que não sei onde termina, talvez num dos prédios de 5, 6 andares que atrás de mim sofreram espirais dum pincel enferrujado, e agora misturam tons de preto, cinzento, azul-escuro. As paredes são essaltadas por cartazes, menores que a minha mão se vistos em perspectiva. Um rectângulo cinzento vai rodando letras verdes, elas veem em tracinhos e umas que se atrasam. Fico a saber que rondam as 8 horas, os 17ºC foram com os minutos.
Num cruzamento perto, os semáforos decidem-se pela mudança de cor, fazendo com que uma montanha se mova à minha frente. Os carros formam carreiros noutro país, num território que faz fronteira o outro lado da rua; são apagados pelos novos cumes. O som duma borracha. O papel ficou borrado e um estrangeiro lança o braço esquerdo janela fora, o direito faz música numa tampa preta que se afunda numa espécie de roda, mesmo à frente de onde se sente. Aqui e ali portos amarelos abarcam novas culturas, costumam andar com um letreiro em cima.
Uma cara de sono, sacos a farejar o chão, pernas que deixam o corpo atrás, olhos mais rápidos que a visão, cigarros no luar do queixo enquanto a mão encontra o isqueiro que se deixou no escritório, leilões ao telemóvel, uma cara suja cujo caminho, misteriosamente, se abre mais à sua passagem, fazendo os braços e as malas dos outros chegarem-se mais perto do corpo, um vestido que se ajusta a cada passo, assobios na boca dum homem, mãos nos bolsos e cara baixa.
Uma criança dá passos maiores a evitar as pedras escuras da calçada. Tem um balão na mão que vai respondendo erradamente às rotas do vento. De início, o vento ignora, até que acaba por sacar da palmatória e, através do movimento do ar, puxa o balão para trás, de esticão. A criança, sem ligar aos ensinamentos, sorri. A mulher que o leva pela mão recriminar-lhe o jogo das pedras escuras com um grito que, daqui, se torna bem audível. O balão estaca-se ao vento. Raras reprimendas, a mulher desce a cabeça e solta uma frase, para de falar para ver onde vai. As bochechas da criança tornaram-se enormes pelo ar que agora levam dentro, nem por uma vez levantou os olhos e os pés tornaram-se lentos.

A rua enorme, os prédios riem-se do vento e aguentam o terramoto, à minha esquerda uma rotunda a bombear diversas direcções, no outro lado outra montanha assenta praça. Em cima dessa montanha, uma imagem que não conheço anda ao vento, sempre nos melhores lugares. Na próxima mudança de cores, vejo-a outra vez.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Balão ao ar

I... I am not so well.

Um novo nome foi bordado no meu coração. As agulhas enormes das avozinhas entraram ao serviço, e com uma paciência de croché, buracos que em tempos faziam parte dum balão de ar quente, passam a escorrer líquidos e líquidos, num contínuo apertar. Visto da altura a que alcançava anteriormente, não resta mais do um pequenino balão de borracha que anda aos saltos pela calçada, a espernear os últimos fôlegos que o furo lhe permite.
Não esperava, mas a maior surpresa, tendo em conta como sou, foi mesmo o balão se ter formado, capaz de viagens longas por paisagens interiores, as quais procurava confirmar a existência há muito. Essa descoberta deve-se a ti, agradeço-te por isso. Compreendo a tua decisão, e prometo não dizer-te o que penso sobre ela (penso muito, como sabes). Gostava apenas de dizer-te que, a essência desse balão, ainda aqui está, e o hélio que me resta é suficiente para desejar acima de tudo a tua felicidade. Espero que ao menos essa vontade me consigas realizar.

Há balões cuja altura a minha mão não consegue tocar. E um como o teu, é peça única. És livro que já nem em alfarrabista se encontra, quadro perdido depois dum assalto magistral ao Louvre, música esquecida no tempo mas que quando se ouve traz o ambiente de volta, fotografia que se recorde não apenas quando fisicamente se vê, mas mentalmente, a todo o instante. Peça de arte de exposição dedicada, ao teu nome. Quem quer que possua o teu nome no seu reportório, tem a invejável e sobre-humana tarefa de arranjar-te galeria ou museu à "altura" das tuas ondas.
Nunca ganhes o medo de alagar as paredes, a agitação faz-te viver.

sábado, 24 de outubro de 2009

Mensagem a branco

:
 -
May I met you?

                            !

   ...nada a acrescentar .

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Espanta-me o teu espírito

Por vezes fico sem palavras.
Like Hank wrote, "You don`t know me very well but if you get me started, I have a tendency to go on and on about how hard the writing is for me. But this... this is the hardest thing I haver had to write."



"Now there`s this strange feeling in my gut that she might be the one. She`s completely nuts, in a way that makes me smile, higly neurotic. A great deal of maintenance required. She is you, ... -(Agora a parte que me é mais difícil dizer, pelo menos para já. Todos os dias vejo-me num novo porto, um daqueles pequenos de madeira que dantes apareciam nos filmes, atrás de mim não vejo nada e tenho a sensação que destruíram a parte que me ligava a terra, com nuvens ao nível das minhas pernas dum lado ao outro. Mas isso não me importa pois, a paisagem, apesar de tudo, acaba por ser sempre a mesma, incrível) - That`s the good news. The bad is that I don`t know how to be with you right now. And that scares a shit out of me."

Sei que palavras é contigo.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Gostaria de conseguir dizer-te. Dizes tu?

Saltas do balão e o teu lugar fica com um tom de cinza. Suspiro. Depressa as minhas mãos procuram uma pequena pá de ferro, daquelas que levam a cinza assim que encaminhadas por uma vassoura de ervas gastas, usadas sem interesse pela mão, e que deixam os tijolos a postos para uma outra vez. O suspiro evapora-se e deixa uma nuvem para respirar. Estes tijolos só agora conheceram o toque paralisante das calotes polares.
Respiro fundo e deixo a cabeça cair na almofada, olhos fechados. Borboletas vou descortinando no ar, onde sei não as poder encontrar, o indicador direito ganha vida e navega em reticências, com o braço em perpendicular ao meu corpo. Os olhos são expulsos dum carro velho e deixados numa rua estreita, a mirar a tua imagem. Volto a fechá-los, reabro-os, e a imagem mantêm-se.
À visão são ensinadas novas danças, uma borboleta em ziguezagues sempre a um milímetro do dedo, o dedo está prestes a apanhá-la e ela, quando parece já não fugir, no último segundo escapa; dos lábios solta-se um sorriso em admiração aos espíritos livres. Outra em que o dedo fica como estaca no ar, à espera dum lápis de cor que o pinte em tons iguais aos da asa, essa que agora roda sobre ele; um desenho, se possível, abstracto e cheio de vermelhos.
O dedo tenta apanhar a borboleta com as asas que espera pintar, asas essas que não vê mas sabe não serem de cinza, e nunca graças à brusquidão dessas raquetas a fazer lembrar as de badmington após um murro no meio, e que se enchem de quantidades de vento a cada pequena corrida.
Desejo haver no meu balão hélio suficiente para depois, sem o amparo da gravidade, conseguir voar. Apenas duas asas.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Pingos, pingos, pingos

Corres à chuva. Tentas um passo fora do abrigo dos prédios e mal ouves o "splah", os teus olhos chegam primeiro ao próximo vão de entrada onde tentarás escorrer a água com os dedos. No outro lado da rua ninguém, e aí bem que um Boeing poderia ser estacionado no espaço dum Smart que nem os gatos dariam por isso. Voltas à estrada, tens onde chegar, a cada passo as calças vão ficando mais azuis, com sorte apenas isso. À tua mala nenhuma função de guarda-chuva pode ser atríbuida, esse objecto que já não distingues onde o perdeste, e como na mala tens algo frágil, usas os braços para a segurar junto ao peito, onde objectos dão sinais de vida a cada metro percorrido. Ao agachares-te para o defenderes, os pingos rumam em peregrinação para as tuas costas, agora com ares de Meca e Muro das Lamentações. Chove mais, e a água escapa-se pelos cabelos inundando-te a face. Caso houvesse em mim poderes de S.Pedro, na tua mão haveria de estar sempre o comando duma nuvem branca.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Onde caem teus olhos?

Usas a palma da mão para descansar o queixo, da palma sobram os dedos que sobem por aí acima e te beijam (sortudos). Tens os dedos fechados, a esconder esse toque do resto do mundo.
As pálpebras vão a meio, sem saber se olhas para baixo ou se não passa de simples pose fotográfica.
Sinto vontade de, suavemente, fazer uso do meu indicador e, num simples gesto, levar o bocado de cabelo que se desprendeu do ouvido ao local de origem. Se o cabelo for estilo recompões depois.

Necessidades #1

Try always to keep pure. Try always to be yourself.

sábado, 17 de outubro de 2009

Preciso dum conselho que sei não ir seguir

Como exprimir a necessidade de dizer o quão incrível és, tendo em mim o medo da tua reacção se te referir directamente? Como é possível a tua paisagem interior?

È o estar num cubo com direito a cama e roupa e lavada, o cubo com 2 m de espessura e pintada de preto. Na parede há pauzinhos com um traço no meio a servir de decoração pelo tempo que não passará nunca, posters que acompanharam gerações ao lado duma réplica de casa de banho, alguns nomes a navalha, se por acaso um murro na parede a quantidade de pó que não sairá. Numa das faces do cubo, enormes estacas de ferro a juntar o chão e o tecto, por entre elas não mais que uma mão.
Fora da cela, vê-se, através dumas estacas mais curtas a servir de janela, uma luz a entrar no cubo. Pedi uma cadeira a um guarda e espero pelo dia em que a luz que apenas virtualmente conheço deite as pequenas estacas ao chão, como um simples sopro sobre o pó.

Break on Through (to the other side)



You know the day destroys the night
Night divides the day
Tried to run
Tried to hide
Break on through to the other side
Break on through to the other side
Break on through to the other side, yeah

We chased our pleasures here
Dug our treasures there
But can you still recall
The time we cried
Break on through to the other side
Break on through to the other side


Yeah!
C'mon, yeah


Everybody loves my baby
Everybody loves my baby
She get high
She get high
She get high
She get hide


I found an island in your arms
Country in your eyes
Arms that chain us
Eyes that lie
Break on through to the other side
Break on through to the other side
Break on through, oww!
Oh, yeah!


Made the scene
Week to week
Day to day
Hour to hour
The gate is straight
Deep and wide
Break on through to the other side
Break on through to the other side
Break on through
Break on through
Break on through
Break on through
Yeah, yeah, yeah, yeah
Yeah, yeah, yeah, yeah, yeah

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

...

No interior das minhas pálpebras pernas fazem círculos no gelo, uma extende-se e outra inflecte. Aos pés aparecem patins e o vento retarda-se nos meus tímpanos, onde sorrisos em eco povoam um pavilhão vazio. Nota-se no final de cada passagem cabelos que penteiam o ar à procura de repouso. No interior das minhas pálpebras, há um piano com rotas por formar.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Não faças charcos junto ao mar

A estrada desaparecia numa curva a descer, carros dum lado e de outro em competição para ver quem raspa mais tinta ao outro, virava a cara para cima e depois dum muro via-se casas velhas numa encosta ao fundo, telhados em forma de pianos desdentados, roupas ao vento, arames à cata dos canais da bola, um cão que só vai até onde a trela não esventra. Seguia-lhe os passos, virava-se para me olhar e tropeçava sempre numa pedra a mais na calçada, numa lata de Coca-Cola que alguém já não quer, ou até mesmo pelo virar repentino e consequente luz abrasadora do Sol bem longe das suas costas. Olhava-me como se me procurasse, a mão direita plana na testa e os olhos imigravam para a China, talvez o Sol me tornasse escuro e isso fazia-me ganhar tempo. Aproximava-me e a mão desaparecia da testa, os olhos regressavam às origens, talvez a um passo ou dois de distância voltava a virar-se para a frente e desatava a correr, curva a baixo. Dizia o seu nome e parava, o queixo virava-se para o alto. Desta vez não se virou mais e, com o embalo da descida e as inúmeras ruas que apareciam em labirinto, desapareceu. Ouvia-a gritar quando comecei a correr para a apanhá-la, deixou-se ficar um segundo que de noite funde-se com a parede do meu quarto, inclinou a cabeça para o lado esquerdo, mostrando-me a face esquerda de olhos na calçada, eu parei e no momento a seguir ela voltou a correr, depois da curva não mais a vi. «Safaste-te de mim», gritou. Corri horas naquele labirinto mas mais nada a não ser casas em pior estado à medida que ia correndo. Ao fundo, via-se o mar delimitado por barcos que ex-pescadores se esqueceram de os levar no túmulo, atracados e com roupas de plástico para turista ver; um paquete zarpava com pessoas felizes a dizer adeus. Uma ponte que começava onde não conseguia ver fazia a ligação a um outro lado, numa margem onde correm para o mar com o Sol a bater-lhes de frente. Na margem de cá como lá, uma imagem bem feita; do sítio onde a ponte começa nenhuma miragem para o outro lado, no outro lado a ponte desce no meio de prédios.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

"What we have here... is a failure to communication"



"But I guess the larger question is: Why is the city of angeles so held-banged on destroying his female population?"

Um café perto do local de trabalho, empregados de farda, chávenas com o símbolo do café, sorrisos rápidos a meia cara, nas mesas um tampo de vidro sobre uma madeira gasta, tons verdes com o amarelo das lascas. 5 lugares em círculo, cafés e águas, um copo de whisky a meia haste para o director. A mesa é curta e alguém fica entre duas cadeiras, acompanhando com os olhos as conversas do costume; um dos colegas que se sentava ao seu lado ia-lhe mirando o peito, deixando a boca aberta sem fazer muito para disfarçar. Bebeu o café em dois golos seguidos, um pequena pausa com um avaliar sobre o resto da mesa, onde ainda se viam pacotes de açúcar serem rasgados. Tem agora os braços cruzados sobre os joelhos, na mala, deixada ao lado da cadeira, ouve o telemóvel e os seus olhos fixam-se no vazio, sustêm a respiração. Na mesa continua a conversa e os sorrisos. Desce mecanicamente o braço onde olha directamente para o botão vermelho que lhe faz a chamada; era uma amiga interessada em saber como lhe estava a correr o primeiro dia. Os sorrisos dão lugar ao fôlego, e o director, depois de passar a mão pela cara, pergunta-lhe a opinião sobre o assunto que estavam a discutir. Ela torna-se estátua, o telemóvel começa a escorrer da mão direita e isso fá-la acordar, segurando-o a tempo. Uma mulher já há muito tempo na empresa solta um sorriso mostrando um pouco dos dentes, leva a cara ao centro da mesa e virada na direcção da estagiária diz: "Coitadinha da rapariga, perdeu a voz."

domingo, 11 de outubro de 2009

Talento na era Pop

Não vi o programa - não me interessa minimamente - mas mostraram-me o vídeo e fiquei imediatamente maravilhado com a voz, ainda por cima a interpretar uma das minhas músicas favoritas, Betterman dos Pearl Jam. Conheço a voz de Eddie Vedder muito bem, e ao vivo num palco acho que não teria grandes hipóteses, mas num espaço acústico como este, poderia batê-lo. Mas, acima de tudo, mostra uma grande voz, tal como o júri comprovou.
Nota-se ainda o desejo de manter a integridade artística acima de tudo, fazer música de qualidade é o que lhe interessa principalmente.

Está aqui o vídeo. A Betterman começa aos 1:20. Nota-se a influência de Eddie Vedder, mas com outro tipo de sentimento, menos forte mas com o seu próprio estilo.


Para quem quiser comparações:


Myspace

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Put me a real smile is hard work

*Post como resposta à Pecado Original (desculpa, escrito assim pode parecer um pouco esquisito mas não sabia que outro nome pôr :P), ao lembrar-me mais uma vez porque escrevo aqui, para pessoas como ela (principalmente os 5 primeiros nomes da lista aqui do lado, pelo que são, e pelo que me conseguem transmitir nos seus blogs.) Gostava de poder estar ao nível delas nessa partilha.
Deixo aqui algo que a minha imaginação me trouxe enquanto estava hoje no comboio, na viagem de regresso, e que me dificultou a pose séria (ou seja, cara de parvo com um sorriso pequeno e idiota que ia escondendo, mal, com a mão.)

Texto:
Entraram e deixaram-se ficar de pé, perto da porta de saída. Ela estava junta aos bancos de trás, ele ficou um pouco antes. Eram umas 10:30 e apenas uma mulher, a rondar os 60, viajava com eles, sentada depois dela. Trocavam alguns olhares, e não paravam de sorrir. Ele olhava, ela mantinha os olhos uns segundos, até virar e baixar de novo a cara; notando apenas um pouco do sorriso. O autocarro parou, dois rapazes entraram e sentaram-se num dos primeiros bancos, um ao lado do outro, falando alto e entretidos com uma revista de jogos de computador. Ela continuava a olha-la, ainda de cara baixa. Vira-se por um momento e o sorriso maior, ele mantêm-se igual e ela volta à mesma pose, segura apenas com a mão direita, baloiçando a cada curva. Ele, quase num salto, vai para trás dela, perto das janelas; é capaz de lhe notar um sorriso maior mas vira-se de forma a escondê-lo. Ele, com passos seguros e de modo a fazerem barulho, segue para o banco de trás, o do meio; tirou um jornal que tinha na mala e fingia que lia, com toda a cara escondida. O autocarro volta a parar, desta vez entra um senhor de muita idade, de bengala, que se senta logo no primeiro banco; ao sentar-se, desequilibrou-se e por pouco que caía, os dois da frente riram-se. Ela tentava vê-lo, mas só conseguia vislumbrar algumas frases; o riso deu lugar a um ar de espanto. Passou uns 30 segundos atrás do jornal, até que, com o indicador direito, baixou ligeiramente uma página, apercebendo-se que ela o olhava; deixou cair o indicador e, de trás do jornal, sorria ligeiramente. Fez o mesmo, mas agora ela desviou o olhar, sorrindo já um pouco. Ele soltou um "Pssst" fraco, fazendo-a virar-se, e ele esconder-se de novo. Um dos rapazes gritou agora ainda mais, dizendo bem alto que não achava possível alguém não gostar de "Counter Strike". Ele voltou a usar o indicador, e ao "Pssst", ela virou-se na sua direcção, tal como a mulher que se sentava atrás, lanço-lhe um olhar muito forte e perguntou se por acaso ele não teria recebido educação em casa. Ela ria da cena a bandeiras despregadas, ele, endireitou-se no banco como se tivesse acordado, fez uma cara séria e pediu desculpa; ao mesmo tempo que olhava para ela, a rir cada vez mais; a mulher voltou-se para a frente. Guardou o jornal e chegou-se para trás no banco, ela veio a sorrir na sua direcção. Quando passou, a mulher abanou a cabeça e juntou muito os lábios, chegando ainda a mala preta que tinha nas mãos contra o peito. O autocarro parou, saíram os rapazes, ainda a falar alto. Ela passou-lhe a mão pela cabeça ao sentar-se, ele sorria novamente.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Por esculpir

À minha mão trouxeram gritos duma montanha, vindos em farpas trincadas que deram num rectângulo esquecido no mar. Cumprida que foi a caixa, ficou uma viagem à horas por terminar. Entre estas colinas o motor custa a manter, pedras agigantam-se a cada roda, nas margens troncos espetados providos com um chapéu verde, tento acelerar pois à montanha nunca mais e eis quando os troncos tiram os chapéus em sinal de cumprimento, tal como o vento às folhas do chão. As horas dão sinal num aparelho antigo, e a montanha parece afastar. Nela, em imagens de longe, conheci uma rocha duas vezes o meu tamanho, repleta de vegetação que combina entre si o assalto. A rocha, cinzenta e sem mãos, está obrigada a perdoar; espera sem saber o motor que há-de chegar.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Aí está

Os dados estão lançados. Entrei na minha primeira opção - que não era assim tão primeira quanto isso - mas, o essencial, neste momento, é a mudança de ares e o que espero ser o rompimento com a monotomia. Além das pessoas que espero que connhecer e as que vou reencontrar, há ainda a enorme diversidade que estou certo de descobrir, à minha maneira. E, desde já, aproveitando ainda a proximidade - talvez uns 100, 200 metros -, prometi a mim mesmo que a minha primeira visita, pois simplesmente adoro aquele espaço, será a Gulbenkian.

domingo, 4 de outubro de 2009

Margot

Admiro profundamente o espírito que fez este filme, mesmo sendo inspirado em factos reais e com a bela ajuda de Alexandre Dumas, que transformou a história em livro e a partir do qual saíu o argumento. Excelentes cenas - por vezes bastante fortes -, que transformam o filme numa enorme, mas subtil, metáfora sobre uma relação, e a sua impossibilidade devido à sociedade, aos desejos primitivos de terceitos, e ao que julga certo ou não.
Um dos melhores filmes que já vi, e que conta ainda com Isabelle Adjani - este papel valeu-lhe um Cèsar - e um dos meus actores preferidos, Daniel Auteuil.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Silêncio

À sua frente o frio da rua, quase a beijar o chão, uma calçada cinzenta, com pequeno exemplos aqui e ali a quebrarem o ritmo, intromissões, basta uma mão mais desesperada e logo quadradinhos a mover, areia atrás a subir-lhe aos olhos; rasteja.
Vozes em cima, talvez abafadas por uma mão, um espaço a seu redor, caminha ao longo das vozes, risos, perguntas, exclamações. Alguém passa a correr e pontapeia-o, as vozes num intervalo de suspense, procuram ar. A pessoa do pontapé nem um olho atrás, não deixa de correr, leva um ramo de rosas numa mão e não deixa de consultar o relógio. O suspence acaba, as vozes regressam, por momentos mais fortes.
Alguém desce do lugar das vozes e transporta a barreira, com a mão tenta chamá-lo, batendo-lhe devagar no ombro, pergunta O que se passa, os segundos correm com o mesmo rastejar, nenhuma resposta, essa pessoa acaba por se cansar e virar costas, leva a mão ao bolso e consulta o telemóvel, vira-se de novo para a pessoa no chão e chama-lhe nomes, cospe-lhe em cima, vira-se e desaparece na multidão, há quem o siga, para qualquer uma das direcções possíveis. Neste momento o aglomerado é maior, a barreira está desfeita, há quem por pouco não o pise. Muitos perguntam o que está a fazer, o som à volta adensa-se. Os olhos estão, em geral, baixos.
Os braços começam-lhe a doer mas não para, sente os braços incapazes de parar. No lugar do pontapé já não sente dor. Torce-se numa esquina e por pouco não é atropelado por um carrinho de bebé, o bebé lá dentro acaba por acordar e começa a chorar. De repente dá um salto de impulso e lança-se para a passadeira, o sinal estava vermelho, um táxi passa nesse momento, no dia seguinte já ninguém rasteja e abre alas no chão por aquelas bandas.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Sem espelho

Palavras à muito na corrente. Tento de novo, agora com o momentâneo sentimento de paz espírito, até à primeira hesitação que surja. Uma cadeira vazia, o som de pernas por todo o lado mas nenhum sinal delas, um ecrã onde ninguém reflectido, teclas sem serem premidas a impingirem letras ao ecrã, e o ecrã, coitado, resigna-se. Nota-se o que pode ser uma frase a surgir, a seguir outra, as letras tentam unir-se, vão aos empurrões e a paz desaparece. Uma guitarra distorcida é pedida para acalmar os nervos, Jimi Hendrix, Jimmy Page, Slash, Kurt Cobain, ..., um sorriso a sair de ninguém pois ninguém a ouvir, os primeiros acordes a soltarem qualquer coisa, vibrações pela sala à cata duma célula, dum organismo vivo, mas nada, ninguém a ouvir, ninguém a escrever apesar dos caracteres que surgem. Ouve-se apenas a respiração mais acelerada aquando do sorriso.
Jimi Hendrix - Voodoo Child
"Well, I stand up next to a mountain
I chop it down with the edge of my hand"

Papéis espalhados pela mesa começam a possuir energia cinética, vida. Dos papéis nenhum rosto para amostra, letras em comunhão procuram sentido lá dentro e nada. À pergunta Onde estás, o silêncio como resposta. Um pássaro no seu ritmo de sempre, o resto da chuva no limoeiro a dar sinal, os cães a anunciar possíveis inimigos escolhidos a dedo duma procissão infindável.
A mesma pessoa a sentir desesperadamente que o PC deveria ter uma maior amplitude de som. A necessidade, física, fá-lo sorrir.
"Yeah, hey!
'Cause I'm a voodoo child, voodoo child
Lord knows I'm a voodoo child, baby"

Uma cadeira agora de lado, no computador o que se julga ser uma página a abrir, uma seta a percorrer quilómetros por um click. Na sala enorme nenhum átomo para a guitarra fazer efeito. Caracteres sem efeito juntam-se finalmente graças a um o teclado sem ninguém para o premir.
Uma mensagem publicada por alguém que se ri da sua ausência de reflexo.
Quem sabe, um fantasma.

Bob Marley - Redemption Song
"Won't you help to sing,
another song of freedom?
'Cause all I ever have:
Redemption songs,
Redemption songs,
Redemption songs!"

domingo, 27 de setembro de 2009

Not so well...

Words aren’t coming, it has to due with current spirit. The most important thing, spirit. That comes from emotions, wich aren`t coming. This get me nervous, disgusted with me, my life. But, the funny thing, not very sad, just not good either.
And writing in english. It’s easy, english doesn’t have music, that`s why I hate english. It’s a good hiding.

sábado, 26 de setembro de 2009

What I believe...

Cena muito bem pensada, principalmente o final. It might get too late.

Especial atenção a partir dos 1:50:
"(...)
-I´m gonna say this once, so I want you to listen to me, all right? No matter what you did, don`t give up. Not give up.
-Why?
-Because if she loves you, she will forgive you.
-You really believe in that.
-I have to. Othewise, there`s no point. There is no life without love. Or not having anyway.
-Fuck it. You are right."

*Acredito apenas se for sentido pelos 2. Ilusões não é grande coisa.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

No sense

As coisas que já não descobrem hoje em dia...


                                                                              e as que se inventam distorcidas.

Love is actually old. Dying.
                                                                                                 Funny, right?

*Photo by Richard Kalvar

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Encontro III

Houve um silêncio. Ela seguiu para junto do carro, onde se encostou ao capô, de braços cruzados. O cabelo caí-lhe até aos ombros, tornando impossível ver-lhe a face. O cabelo voava um pouco ao sabor da brisa, enquanto as rastas se mantinham quase inalteráveis. "Deve fazer-lhe alguma impressão, as rastas a raspar, ou talvez já se tenha habituado.", pensei. Ela levantou a cara e olhou para mim. Depois, com a mão passou o resto do cabelo para trás. Caminhei até ao carro ao lado, onde me sentei, de frente para ela.
-Hey! Esse carro nem é meu.
-Não faz mal. Eu também não o quero comprar nem nada.
-E achas que podias comprar esse carro?
-Não sei. Mas mesmo se pudesse, não comprava. Há tantos modelos iguais a este, não gostava de passar a cada esquina e ver um como o meu. Dava-me a sensação de estar sempre a ser roubado.
-És um daqueles ricos com um carro que ninguém pode comprar enfiado na garagem?
-Não, nada disso. Nem sequer tenho carro, e a minha fortuna gasta-se na renda do apartamento. Apenas prefiro carros menos comuns.
-Então... eras capaz de apostar que não o compravas?
-Não estou muito de apostar.
-Isso não é resposta.
-Também não estou muito de respostas.
-Basta um sim ou não. Até tu disseste que não gostavas do carro, qual é a dificuldade?
-Ter de fazer isto. Como se de uma resposta minha dependesse muita coisa.
-E nem sequer o teu nome perguntei ainda. Mas que raio estás a pensar?
-Alexandre.
Eu tinha os olhos nos meus sapatos, o pé direito não parava de escavar, escondi as mãos nos bolsos. Enquanto isso, ouvia-a suspirar.
-Não estiveste muito mal agora. - disse ela.
Eu levantei a cara.
-Não estive mal? Que quer isso dizer?
Neste momento, enquanto a olhava à espera duma resposta, ouvi duas pessoas a chegarem. Uma delas chegou ao pé de mim e disse-me para sair de cima do carro. Eu levantei a mão esquerda e estendi-lhe a palma, sempre a olhar para ela, que tinha os olhos nessa pessoa. Pedi-lhe um minuto, sempre a olhar para ela, à minha frente, e por esse pedido levei um murro na cara e caí no chão.
-È o carro da minha namorada, otário. - disse, depois de quase passar com os pés em cima de mim, e já com a porta entre nós os dois. Entrou e, a namorada, que já estava igualmente dentro do carro, fez marcha atrás e deixou um espaço vazio. Aceleraram depressa, e ainda consegui ouvi-la a falhar a segunda mudança.
Ela saltou do carro e foi ter comigo. As costas doíam-me mas dum momento para o outro só me apercebia do seu cabelo, que ela tentava compor com a mão. Quando se baixou, vi de perto os seus olhos castanhos, completamente brancos ao redor. Notava-se aflição no seu rosto, mas eu só notava os seus olhos. Tocou no meu ombro e perguntou se estava tudo bem. Disse que detesteva aqueles dois.
-Acho que devíamos ir a tua casa depressa. Dói-me aqui qualquer coisa e estou a precisar dos primeiros socorros.
-Boa tentativa, mas pareces-me muito bem.
-Isto são lesões internas. È preciso ter atenção a estas coisas.
Ela levantou-se. Eu, primeiro, sentei-me, depois apoie-me no chão e subi igualmente.
-Tenho de ir. - disse-me.
-Espera. Ainda não me respondeste.
-Não és capaz de avinhar?
-Estou à espera dumas luzes.
-Primeiros socorros?
-Entre outras coisas.
-Não me julgava tão complicada.
-Bem... tens os teus momentos.
Ela olhou para mim, como que a sondar-me. Deixou escapar um pequeno sorriso e eu sorri também.
-Estou para ir a um bar. - continuou - Estava a pensar se também querias vir...
-A sério? Claro que vou.
Voltou-se para a porta do carro e abriu-a. Dei a volta ao carro e também entrei.
-Já te disse que gosto do teu carro? - perguntei.
-Ainda não, mas estás sempre à vontade para dizer.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

All Words

"You are just an analogic man in a digital world, aren`t you?" - "Surfer Girl" in Californication. Season 1, episode 4.

(Gostava de pôr o vídeo, mas não o consegui encontrar. Deixo aqui outro, também muito bom, com as mesmas personagens e do mesmo episódio.)

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

No words

Tenho vontade de bater com a cabeça nas paredes, de agarrar nos meus braços e esconde-los bem, onde as minhas palavras não possam chegar. Quero vomitar todas as finas impurezas que tenho dentro de mim, de vez, elas que me aparecem como uma navio enorme no meio do oceano, onde metade desse navio chega ao nível das nuvens e daí mais não se vê.
Tenho um problema grave com palavras, elas usam-me, aparecem dentro de mim e não sei usá-las, não consigo agarra-las ao certo, chegam e dizem olá, andam às voltas, aparece uma sensação, e se me distrair um segundo "adeus"; detesto-as. (Os adjectivos são de longe os maiores falsos que conheço, faço de tudo para não os usar. Com os verbos ainda dá para falar.)
Detesto a grande maioria dos meus textos, não tenha tema que escrever, e detesto igualmente a infantilidade da minha imaginação. Uma barreira, e lá no alto uma voz que conheço mas que não consigo chegar. A história "Encontro" é quase como se acreditasse no Pai Natal. Enerva-me fazer algo tão irreal, mas é o impulso que sinto, até por saber que o que escondo por trás dele poucos o conseguem ver, no meu inconsciente, e que nunca chegarei a dizer, pelo menos à maioria. (Não vale dizerem o contrário, é que nem tentem por favor.)
Adoro a comunicação corporal, risos, olhares, lábios torcidos, mãos com vida própria, toques lentos e sem mal, a postura do corpo, tudo isso encanta-me, não há entendimento mais profundo. Percebo ainda muito melhor, é-me mais natural. Mas há limites que a realidade não permite passar, e o recurso às palavras torna-se tão necessário até chegar à banalidade, muitas vezes acontece-me, mesmo que a intenção, como o é na grande maioria das vezes, seja a melhor.
Detesto MSNs e HI5s, aliás, detesto escrever pela net, não é humano. E esta incompreensão, o de não saber exactamente em que estado estão os outros, seja ao vivo ou não, faz-me usar um registo parecido com muita gente, quando há pessoas que merecem um especial, diferente. Perco muito tempo a pensar no que dizer, a medir palavras, a virá-las ao contrário à procura dum duplo significado, códigos que tento pôr e outros que vejo - julgo eu -, tanto nas minhas palavras como nas de outras pessoas. Mesmo este post é um código, como a maioria dos meus, mas neste a falta de coragem é ainda maior. E quando que estou prestes a atingir o que quero, elas riem-se de mim e dizem adeus. Os remorsos aparecem quando sou obrigado a soltar o que tenho. Como se, com algumas pessoas, exija no mínimo a perfeição nas minhas palavras.
Sinto-me tão vazio, é como se estivesse tudo à minha frente e por alguma razão não consiga agarrar. Acho que é isso que me está a acontecer, estou a deixar passar as palavras duma pessoa, embora pretenda o contrário. Ou então esteja a fazer uma grande confusão. Adorava poder ser mais explícito, mas também há o medo de perder o "pouco" que se conquistou, e com isso o que ainda pode vir. Com outra peço o sublime.
Apetecia-me dizer um nome que tenho repetido, e muito, mentalmente. E é melhor assim, não merece tamanha vulgarização.

domingo, 20 de setembro de 2009

Encontro II *

*Versão final, corrigida às 22:09.

Texto:

As palavras fizeram-me voltar na sua direcção. Novamente um vento e papéis aos saltos, o meu cabelo apanhou a boleia e uns riscos em cima dos olhos, latas com guizos dentro a suplicar liberdade, o vento parou e deixou-me uma lata a jeito de rematar. A ela, entre dois carros, nem o cabelo abanou. A mão direita apalpava o cimo do carro, enquanto o braço descia inclinado pelo vidro; a manga do vestido caiu e via-lhe pulseiras em cascata. Com os metros entre nós a ajudar, parecia-me mais pequena; ao mesmo tempo que, o seu olhar, agora fixo em mim, e o corpo, um pouco inclinado para a frente, a ocupar a maioria do vazio entre os dois carros, obrigavam-me a tentar adivinhar rapidamente o que teria ela dito, como uma carta à qual tinha de responder sem saber por onde começar. O gato, ainda na janela, miava.
-È os óculos de sol? - disse ela - Muito escuros não é?
Mantive-me parado. Se pudesse sair de mim e ver-me ao longe, com uma lata perdida junto ao pé direito, e ar embasbacado, acho que riria de mim. Ela tinha agora a mão esquerda apoiada na anca, e torcia o lábio.
-Devias pôr protector, - continuou, agora a gesticular com a mão direita - estás muito vermelho.
-Já me avisaram das radiações solares à noite, mas eu não quero crer.
-Não? Pois acho que devias, estava capaz de identificar alguns pontos negros na tua capacidade comunicativa.
-Apenas quando encontro alguém de óculos escuros.
-Mas eu não tenho óculos escuros.
-Não tens? Era capaz de apostar que tinhas... - levantei um pouco a mão direita na direcção dela - talvez dentro da tua mala.
Ela sorriu, enquanto olhava durante alguns instantes para o chão. Consegui ouvir uma respiração mais forte e ritmada aquando do sorriso.
-Não me parece uma grande aposta. - disse ela - Não há grande risco numa aposta dessas, terias pouco lucro.
-Mas há boas hipóteses de ganhar.
Sorriu de novo.
-Sim, nisso tens razão. È até uma lógica interessante, segura. Há algumas assim. Mas queres saber se ganhaste ou vais continuar o espectaculo?
-Mas apetecia-te dizer já, era?
Caminhou na minha direcção, passos lentos.
-Um pouco. - Disse-me ao chegar perto. Baixou os olhos por um instante, raspava o sapato na calçada. Levantou a cara e vi-lhe um sorriso escondido. Os olhos, ligeiramente escondidos no cabelo, procuravam a minha cara. Eu, sem a perceber, sorria.
-Mas é que preferia descobrir depois... - e o meu sorriso, por instinto, abriu-se.
-Medo de alguma coisa?
-Não, nada disso. È que esses óculos interessam-me muito.
-Bem me parecia.
Os seus olhos estavam novamente fixos nos meus, uns olhos tristes. O meu sorriso tinha-se apagado.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Desabafo

Estou há muito em cima duma linha e não sei quanto mais posso aguentar. Se cair, sei que, e tendo em conta o que se julga ser bom nesta sociedade, me darei bem. Sempre me soube desenrascar, sempre me dei bem sozinho, no máximo admito estar metaforizado nos textos que invento, aí exponho-me, adoro jogar comigo em pequenas coisas, da mesma forma como adoro descobrir os outros atrás de pequenas linhas, de uma ou outra palavra, sou até capaz de apostar a sua expressão corporal enquanto escreviam tal coisa, risos, lábios trincados, olhares baixos, mãos na perna que sobe na cadeira e se procura esconder; a imaginação dos outros fascina-me, a minha é demasiado geral. Raramente peço conselhos e nunca - deixo aqui um pequeno aparte pois a memória pode ser traiçoeira - chorei os meus sentimentos à frente de alguém a pedir apoio, não é quem sou. Mas agora estou farto, quero que se foda toda a teoria, os julgamentos e quem julga. Ou melhor, nem quero isso, apenas que me deixem em paz e me deixem viver a vida à minha maneira, mesmo que ao não fazer o que julgam estar certo possa-me dar mal, sinceramente não me importa assim tanto. Talvez seja da idade, sei que isto pode parecer um pouco fatalista, mas o medo de acabar mal não existe em mim, os meus 19 anos sempre me deram muita força, por vezes meto-me a correr feito um louco até chegar ao limite e mesmo quando chego não paro. E o que dizem também não me importa assim tanto, a não ser que influencie directamente na minha vida. Um dos sentimentos que raramente tenho - não me lembro da última vez que o tive - é inveja, e nunca me conseguirão enervar a sério por terem qualquer coisa que eu até poderia querer. Nem de outras formas é fácil, por vezes o meu irmão, mete-se a brincar comigo a pensar que eu possa ser do PCP ou do BE - não sou, embora não negue algumas afinidades com o BE, mas não sou - e então fico calado a ouvi-lo, a rir-me enquanto ele critica as ideias económicas desses partidos, os jovens desses partidos, "é pessoal que não interessa a ninguém", diz-me a brincar, por vezes também entro na brincadeira, pois aí já-me é mais pessoal e os nervos sobem um pouco, e começo a gozar com os "betinhos" da JSD e da JP, ou seja, e perdoem-me a generalização, aqueles gajo que andam de camisa a mostrar os pelos do peito à Paulo Portas, cujos professores iam aos domingos a casa dos papás para convívio, que andam com uma loira atrás para daqui a 10 anos espancarem-na, e que agora serve acima de tudo para os levantarem quando estão bêbados - os rapazinhos não levantam mais nada. Mas eu quero, acima de tudo, distância disso, não me interessa nada disso por muito que me chateiam a cabeça. Aliás, esse é pessoal que me enerva, detesto ideias fixas, nada a fazer. Mas também, quando lhe digo isso a brincar, sei bem que ele não é nada assim, tenho orgulho de ser irmão dele, e isto também não passam de generalizações. Quero viver a vida à minha maneira, duma forma mais calma, interessa-me muito mais o contacto humano, não necessariamente as ideais - de qualquer tipo, nem que seja aquela gente que se põe a teorizar excessivamente sobre a arte, acho que os pequenos toques devem ser principalmente descoberto, se não fica mais difícil perceber como se chegou a essa simplicidade - ou o conforto material - embora não me importe nada com ele, apenas não o quero como símbolo de qualquer coisa atingida.
Acho que a linha abana porque há muito não é fortalecida, o balão está a dar as últimas e preciso de mais oxigénio, e para isso acho que a minha ida para Lx será fundamental - pena ser só na 2ªfase -, novas experiências, novas pessoas. Não me quero esconder, preciso de algo novo - acho mesmo que alguém -, uma emoção - preocupa-me muito a minha actual incapacidade de as criar. Sei que se cair, também não serei o oposto, mas não serei nada, serei mais um no vazio, e eu quero fazer mais, não apenas para mim, seja de que maneira for. Mas primeiro, necessito do ponto de partida, do abrigo, embora tenha de ser mesmo real, caso contrário não sou apenas eu a ser enganado.
Agora ainda estou em cima, mas a linha abana cada vez mais. Quero sentir o perigo apetecível das emoções contraditórias e crescer a partir daí, apenas a partir daí.

Sinto que falei muito sem dizer grande coisa, mas também tenho pensado tanto sem sair nada.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Guns N' Roses - Patience

Adoro o Slash neste vídeo, não só pelo excelente solo a partir dos 3:25 - incrível aos 4:13 -, mas também por estar totalmente concentrado a massajar uma cobra enquanto mulheres se vão deitando ao seu lado, uma após outra. Maneira de no rock n`roll dizer: "Desculpa, nada de pessoal, mas não és a tal. Não peças demais." Podem considerar isso insensível, eu discordo. Na minha opinião é até a defesa de algo com mais significado. Acho ainda que, usando a confrontação, passa-se melhor a mensagem.
Não é só a cara escondida pelos caracóis compridos e pela cartola, o cigarro a cair da boca, os casacos de cabedal com o símbolo dos Guns feito por ele. Também não é só, embora seja de longe o mais importante, a habilidade lendária com a sua Les Paul, que fizeram dele um dos maiores ícones da história do rock. A personalidade também conta para esse título, e quando se têm uma tão grande, sobressaí claramente.