Não é necessário que saias de casa. Fica
à mesa e escuta. Não escutes, espera apenas.
Não esperes, fica em silêncio e só. O mundo
virá oferecer-se a ti para que o desmascares,
não pode fazer outra coisa, extasiado, ´
contorcer-se-á diante de ti.

Franz Kafka, "Aforismos"


quinta-feira, 23 de abril de 2009

O Jardim - II de III

Sentou-se num banco de jardim. O mesmo de sempre. Fitava particularmente uma árvore, que apesar de não lhe saber o nome, lhe transmitia uma sensação estranha de paz. E assim ficou, tranquila, todo esse tempo sem se preocupar com mais do que uma ou outra festa no dorso do cão em resposta aos seus latidos. Até que uma voz a fez recuperar os sentidos:
-Minha querida Maria. Como estás? Oh… - abriu os braços por impulso mas depressa se recompôs - mais bonita do que nunca. – e sorriu.
Era Luís, um velho conhecido de Maria. Ultimamente, desde que soube destas «saídas», passa pelo jardim todos os dias, mal sai do escritório. Na empresa do pai. Fato e gravata, nunca tira das mãos a pasta para suavizar o nervosismo.
Maria sorriu um pouco, um sorriso seco, disse: “Olá Luís” e voltou-se para o cão. Estiveram assim uns segundos, ela sentada, ele de pé a admirá-la, nervoso.
-Não se senta? Esteja descansado que não mordo.
Ele tentou disfarçar com um sorriso. Sentou-se devagar, olhou o cão. Ganhou coragem e virou-se então para ela, com a pasta sobre os joelhos.
-Bem sei que não morde, sempre a brincar a Maria. Estava era distraído a contemplar os seus lindos olhos.
-Não comece outra vez. Estou a ficar farta das suas histórias. Não lhe chegou já?
-Não, desculpe-me. Mas é você… Não me consigo aperceber do que faço. Mas por favor, não vá, isso foi só uma vez, juro. – e via-se o desespero no seu rosto.
-Muito bem. Mas ai de você que comece outra vez aí a declamar a plenos pulmões. Vou-me logo embora. – e apontou com o dedo para a saída do jardim.
Ficaram uns minutos em silêncio, ele sempre direitinho, olhar baixo na direcção da pasta; ela ocupava-se do cão.
Luís tossiu um seco. – Já pensou naquilo que eu lhe disse?
-Naquilo o quê? – olhou para ele com a sobrancelha direita levantada.
Ele engasgou-se um pouco.
-Sobre… - e ia entrelaçando os dedos – sobre… - tossiu de novo – o nosso jantar.
-Não há muito em que pensar. – sempre serena, no mesmo tom de voz, e brincando com o cão que agora se apoiava no banco.
Luís, muito devagar, pôs a mala à sua esquerda. Abriu-a sem o menor barulho e tirou uma rosa, envolvida num plástico transparente. Maria sempre de volta do cão. Agarrou decidido a rosa, deu um pequeno salto, bastante desengonçado, para a frente de Maria. Elevou a rosa com a mão direita e deixou cair a esquerda sobre o joelho. Ela ficou sem reacção.

10 comentários:

maria miguel disse...

quero o fim :D

U disse...

E eu também quero o fim :| o problema do poço, é que não tem fundo, logo se me atirasses a corda não a chegava a apanhar :/ tou sempre a descer. E não dá para mexer! Mas vá, é só papel para queimar.

al disse...

oh.. eu também queria que me dessem assim uma rosa :') *

Xaninha disse...

:) que bela maneira de nos deixar curiosos!

Gostei muito, tive imagens de tudo *

Joana M. disse...

Amoroso, este - comovente!

O meu segredo é o mesmo do filme: I was watching him first :p

U disse...

Pois deixava, não pode ser!
E não gosto da frase que tens ali em cima, ai!

Catarina disse...

Fiquei curiosa =D

MafaldaMacedo disse...

anciosa pelo fim, está particularmente interessante o decorrer da historia (:

Unknown disse...

ela vai ter que aceitar, depois na rosa nao há hipotese :)

U disse...

Mau mau! Não é nada que eu identifico-me com muito.
Já te inspiravas, já já.